Gestão federal busca prevenir problemas de navegabilidade enquanto articula concessões, que deverão reduzir frete em 25%
(Foto: Divulgação/ Governo Federal)
O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, informou que o governo federal deverá investir mais de R$ 500 milhões até o final de 2026 para garantir a navegabilidade dos rios amazônicos, especialmente durante o período da estiagem. Além disso, ele estima que o avanço das concessões das hidrovias leve a uma redução no frete, dando como exemplo a futura hidrovia do rio Madeira, onde a queda seria de 25%.
As declarações ocorreram durante o encontro on-line Diálogos Amazônicos, promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) na noite dessa segunda-feira (27). O titular da secretaria ligada ao Ministério dos Portos e Aeroportos (MPor) destacou que foram investidos quase R$ 1,7 bilhão nos últimos três anos e meio na região por meio de dragagens em rios importantes para o transporte de cargas até Manaus, incluindo pontos críticos como a Enseada do Madeira, entre a capital e Itacoatiara.
Otto Luiz Burlier informou no encontro que o governo tem como agenda para o futuro as concessões de hidrovias para garantir previsibilidade ao setor produtivo. Segundo ele, os contratos de concessão incluirão todo o investimento que hoje é feito pelo governo como dragagem, sinalização e hidrografia, além da implantação de gestão ambiental e tecnologias de monitoramento para acompanhar as embarcações que passam pela hidrovia.
Uma das eventuais concessões que está no radar é para o rio Madeira. Segundo o secretário, poderá haver uma redução de 25% no frete de mercadorias, já que “o rio vai funcionar plenamente 24 horas por dia, todos os dias do ano. As empresas vão poder movimentar as suas cargas de forma plena e isso vai trazer uma série de benefícios para todos os atores”. O benefício suplantaria, inclusive, o eventual frete cobrado das empresas.
A concessão do rio Madeira estava prevista para iniciar as tratativas neste ano, mas foi revogada em fevereiro juntamente às concessões dos rios Tapajós e Tocantins em fevereiro deste ano em meio à pressão de lideranças indígenas em Santarém, no Pará. Na época, o coordenador do Conselho Indígena do Baixo Tapajós (Cita), Lukas Tupinambá, comemorou a decisão do governo e destacou que os impactos da concessão do Tapajós “seriam gigantescos”.
As dragagens trariam consequências diretas para a cadeia alimentar do rio Tapajós. Nós deixamos o recado que, antes de qualquer empreendimento que o governo pretenda fazer no rio Tapajós, tem que ser ouvidas as populações, até porque a OIT 169 garante a consulta”, disse.
Participante do encontro, o professor Francis Wagner, coordenador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (LabClim) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), destacou a intensificação de extremos climáticos na região nos últimos 20 anos, com as quatro maiores cheias e secas ocorrendo em um intervalo muito curto. A última seca histórica, em 2024, fez o rio Negro alcanças 12,13 metros.
Os prognósticos da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, em inglês) apontam que o fenômeno deve se tornar mais forte entre os meses de agosto e outubro. Para se antecipar, o LabClim desenvolveu modelos de acompanhamento das chuvas e os comparou com o período da seca histórica. Segundo o pesquisador, há uma grande diferença positiva entre 2026 e 2024.
O laboratório aponta ainda que as descidas dos rios têm estado dentro da média. Nesta terça-feira (28), o rio Negro atingiu a cota de 27,62 metros, seis centímetros a menos em comparação à segunda-feira. Nas previsões para a rio Amazonas, a vazante também tem sido gradual e dentro da normalidade no horizonte de 30 dias.