Iniciativa oferece formação e acompanhamento técnico à populações indígenas de São Gabriel da Cachoeira
Encontro reuniu 30 projetos de diferentes etnias para debater biomas digitais em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Stefany Jablonski/Labic/UFRJ)
Entre as negras águas que contam histórias e as florestas que guardam memórias, os povos indígenas erguem sua voz em um novo território: o digital. Atravessando séculos de silenciamento, transformam as tecnologias de comunicação e informação em ferramentas de resistência e pontes de afirmação cultural, mostrando que a ancestralidade também pulsa nas redes contemporâneas.
Buscando fortalecer a presença indígena em cidadania, território e cultura digital, a Rede de Formação em Cultura Digital, iniciativa do Laboratório de Inovação Cidadã (Labic/UFRJ), selecionou 30 projetos comunitários de povos indígenas de São Gabriel da Cachoeira, para participarem de um programa de formação em cultura digital entre 04 a 07 de fevereiro.
A iniciativa busca ampliar o protagonismo dos povos indígenas do estado do Amazonas na criação de narrativas próprias, além de provocar o debate sobre os direitos dos povos das florestas em diálogo com os “biomas digitais”, que atravessam a vida cotidiana, política e os territórios amazônicos.
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Línguas oficiais
Sendo o município brasileiro com a maior população indígena, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São Gabriel da Cachoeira abriga 23 etnias e reconhece o Tukano, Baniwa e Nheengatu como línguas oficiais, para além do português, tornando-se exemplo comunicacional para outros povos indígenas.
“A comunicação em São Gabriel da Cachoeira é muito forte. Já existe uma uma percepção dos grupos indígenas de que ela é decisiva como forma de preservação da própria cultura, de comunicação entre os povos e defesa dos territórios”, destacou a coordenadora.
Ampliando a realidade
Claudia Ferraz, indígena do povo Wanano e coordenadora da Rádio On-line Wayuri, entende que a comunicação digital contribui para mostrar as lutas diárias, as vivências e a realidade da vida nos territórios indígenas, possibilitando o compartilhamento com o público não-indígena.
outros coletivos que, muitas das vezes, nos inspiram a criar novos projetos e novas iniciativas, de acordo com a nossa realidade local. A universidade nos traz várias possibilidades de parcerias, acompanhando e fortalecendo o desenvolvimento de nossas ações e projetos dentro do território”, frisou.
Rede de formação
A Rede de Formação em Cultura Digital - Labic Amazonas, em São Gabriel da Cachoeira é realizada pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Formação Artística e Cultural, Livro e Leitura (Sefli), e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), através da Pró-Reitoria de Extensão, com a parceria institucional da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), e tem colaboração do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ e da Mídia Ninja.
Para além da formação teórica, prática e acompanhamento técnico, as 30 iniciativas contempladas também receberam o incentivo financeiro de R$ 1.000,00, que poderá ser utilizado para a aquisição de materiais, equipamentos ou serem investidos na melhoria dos projetos.
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Ferramenta de resistência
A programação articula a comunicação indígena como parte das lutas contemporâneas dos povos originários, abordando temas como o enfrentamento à desinformação nas aldeias, escolas indígenas inovadoras, exibição de documentários e de oficinas práticas de comunicação.
Para Ednéia Teles, indígena do povo Arapaso e coordenadora do projeto “Movimento de Futebol Feminino Indígena 100tenárias”, a formação em cultura digital possibilita a ruptura de estigmas associados à imagem dos povos indígenas e, principalmente, ao registro e documentação cultural e combate a fake news.
Compreendendo a cultura digital como uma ferramenta para a valorização cultural dos povos indígenas, Estevão Olimpio, indígena do povo Kuripako e coordenador da microrregião do Baixo Içanã, destacou a importância desta ferramenta para o fortalecimento da cultura e formação de novas lideranças.