Ensaio clínico realizado na USP demonstrou que as duas abordagens não farmacológicas melhoram a qualidade de vida e aliviam sintomas respiratórios e de ansiedade a médio prazo
Pesquisador ressalta que tanto o treinamento como a intervenção comportamental são um complemento da medicação: (Foto: Agência FAPESP)
Para pessoas que sofrem com asma moderada a grave, aumentar o número de passos diários pode ser tão eficaz para o controle da doença quanto suar a camisa em sessões estruturadas de treinamento aeróbico. É o que revela um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista Pulmonology. A pesquisa demonstrou que as duas abordagens melhoram a qualidade de vida, aliviam sintomas de ansiedade e depressão e mantêm a asma sob controle a médio prazo, oferecendo aos médicos e pacientes alternativas mais flexíveis e acessíveis de tratamento não farmacológico.
O artigo é fruto do doutorado do fisioterapeuta David Halen Araújo Pinheiro, desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) em colaboração com a Unidade de Doenças de Vias Aéreas da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (HC) da FM-USP. O grupo recebeu apoio da FAPESP (projetos 21/03745-3, 24/00263-6, 21/04198-6 e 18/17788-3) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“Em um estudo anterior, vimos que, se um paciente caminha 7.500 passos por dia, ele já tem um melhor controle clínico da asma”, afirma Pinheiro, atualmente pós-doutorando do Laboratório de Investigação em Fisioterapia e Exercício (Liffe) do HC-FM-USP, com bolsa da FAPESP.
De 480 pacientes convidados a fazer parte do novo estudo, 52 ingressaram no programa após triagem. As intervenções duraram dois meses e uma reavaliação foi feita quatro meses depois. Para participar da pesquisa, os voluntários com diagnóstico de asma moderada a grave não controlada deveriam estar até então inativos (praticando menos de 150 minutos de atividade física moderada a vigorosa por semana), recebendo tratamento médico por ao menos seis meses, clinicamente estáveis (sem exacerbação nos últimos 30 dias) e não ser fumantes.
Antes de iniciar o programa, os participantes assistiram a uma aula educacional presencial, com tópicos como fisiopatologia da asma, uso correto da medicação e benefícios da prática de atividade física. Por sorteio, os voluntários foram divididos em dois grupos. Um deles passou a frequentar duas vezes por semana o HC para um treinamento aeróbio em esteira ergométrica com orientação profissional por 45 minutos. O segundo grupo frequentou o HC uma vez por semana, para sessões de até 90 minutos, a fim de receber orientações, aconselhamentos e incentivos para aumento da prática de atividade física, com caminhadas e estabelecimento de metas semanais. Os membros desse grupo receberam no período um relógio inteligente (smartwatch) para a contagem dos passos. Ambas as intervenções duraram oito semanas.
Os parâmetros de atividade física, controle clínico da asma, qualidade de vida e sintomas de depressão e ansiedade foram medidos em três momentos: antes do início da pesquisa (basal), logo após concluídas as oito semanas de intervenção (pós-intervenção) e quatro meses depois (follow-up). Nas três etapas de avaliação, que duraram sete dias e sete noites, os voluntários usaram um acelerômetro na cintura durante o dia, para medir os passos, e outro no punho à noite, para verificar a qualidade do sono. Os profissionais que fizeram as avaliações não estavam diretamente envolvidos no estudo e não sabiam em qual dos grupos o paciente estava.
Baixa qualidade de vida
As pessoas com asma que integraram a pesquisa tinham entre 18 e 65 anos. A maioria era de mulheres com sobrepeso ou obesidade grau 1 e apresentava sintomas de ansiedade e depressão, além de baixa qualidade de vida, escrevem os autores do artigo. Os voluntários dos dois grupos tiveram menos sintomas respiratórios e mantiveram o benefício quatro meses após o término.
“Ambas as intervenções são benéficas para o paciente e proporcionam um melhor controle clínico da doença. E, em nosso resultado, nenhuma das estratégias se sobressaiu à outra”, ressalta Pinheiro. “Entretanto, o treinamento aeróbio requer um aparato maior e precisa ser supervisionado. Já com uma simples caminhada, ao aumentar o número diário de passos, o paciente tende também a controlar a doença e obter outros benefícios, como, por exemplo, a melhora da qualidade de vida e a redução dos sintomas de ansiedade e depressão.”
Após concluídos os dois meses de uma intervenção ou de outra, os pesquisadores ficavam quatro meses sem entrar em contato com os pacientes e só então os chamavam para follow-up. “Fizemos isso para não influenciar e deixar que seguissem a vida cotidiana”, conta o pesquisador. “Depois dos quatro meses, muitos pacientes do grupo do treinamento aeróbio contaram que entraram na academia para fazer esteira e os pacientes do grupo da intervenção comportamental mantiveram a caminhada no dia a dia”, diz.
Nem todos, porém. A variação climática (de tempo frio para o quente ou vice-versa) foi apontada como o principal motivo para a descontinuidade das atividades.
“Observamos que, no grupo de treinamento aeróbio, o número de passos aumentou em comparação com o momento basal e decaiu no follow-up. O mesmo ocorreu no grupo de intervenção comportamental, embora nos dois casos os números tenham ficado acima do registrado antes da intervenção.”
No grupo de treinamento aeróbio, no pós-intervenção houve um aumento em média de 1.537 passos por dia, em relação ao momento inicial. No follow-up desse grupo, o aumento foi menor: ficou em 983 passos. Já no grupo da intervenção comportamental, o número de passos diários logo após os dois meses de programa teve aumento de 1.126. Quatro meses depois, o número foi para 996.
“Isso foi uma curiosidade que notamos. Depois de quatro meses, o número de passos registrados pelo grupo da intervenção comportamental foi um pouco maior do que o do treinamento aeróbio.”
Pinheiro ressalta, no entanto, que em seu protocolo o paciente deve fazer uso contínuo da medicação, como preconizado pela organização internacional Iniciativa Global para a Asma (Gina). “Tanto o treinamento aeróbio como a intervenção são um complemento da medicação. Não podemos jamais parar de fazer uso do tratamento que o médico prescreve”, afirma o pesquisador.