Inclusão

Autismo na vida adulta: o desafio do diagnóstico tardio

No Dia Mundial de Conscientização, especialistas alertam para os sinais invisíveis e a importância do acolhimento

Portal A Crítica
04/04/2026 às 14:13.
Atualizado em 04/04/2026 às 14:13

Psicóloga Soneide Santos explica que o diagnóstico traz alívio e compreensão (Divulgação)

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, trouxe à tona um tema que ainda gera muitas dúvidas: o Transtorno do Espectro Autista (TEA) na vida adulta. Embora tradicionalmente associado à infância, o autismo também está presente em adultos, muitos dos quais passam anos sem diagnóstico. A data reforça a importância da informação, do acolhimento e do acesso a acompanhamento especializado — pontos essenciais para promover qualidade de vida.

De acordo com a psicóloga Soneide Santos, é comum que sinais do autismo em adultos sejam mais sutis e, por isso, passem despercebidos ao longo da vida.

“Quando pensamos em autismo, geralmente associamos essa condição à infância. No entanto, o TEA pode estar presente em pessoas de todas as idades, inclusive em adultos que nunca receberam diagnóstico na infância”, explica. Segundo ela, muitos desses casos estão ligados ao chamado nível 1 de suporte, em que a pessoa desenvolve estratégias para se adaptar socialmente.

Entre os principais sinais, estão dificuldades na comunicação social, tanto verbal quanto não verbal, além de desafios na compreensão de ironias, sarcasmo e expressões emocionais.

“Também são frequentes padrões de comportamento restritos e repetitivos, como a necessidade de manter rotinas rígidas e resistência a mudanças”, destaca Soneide. Interesses intensos por temas específicos e alterações sensoriais, como sensibilidade a sons, luzes ou texturas, também são características comuns.

Outro aspecto importante é a chamada “camuflagem social”, estratégia utilizada por muitas pessoas para se adaptar ao convívio em sociedade.

“Nas interações sociais, embora consigam se relacionar, é comum haver dificuldade em compreender sinais mais sutis, como linguagem corporal e expressões faciais”, afirma a psicóloga. Esse comportamento pode dificultar ainda mais a identificação do transtorno ao longo dos anos.

O subdiagnóstico, especialmente em adultos, ainda é uma realidade. Segundo Soneide, fatores como a falta de informação no passado e a confusão com outros transtornos, como ansiedade, depressão e TDAH, contribuem para esse cenário. “Atualmente, muitas pessoas só procuram avaliação quando enfrentam sofrimento intenso ou dificuldades funcionais na vida adulta”, pontua.

O processo de diagnóstico, segundo a especialista, é essencialmente clínico e envolve uma análise detalhada do histórico do paciente.

“O diagnóstico do TEA envolve entrevistas, observação comportamental e aplicação de instrumentos padronizados. Os profissionais mais indicados são neurologistas e psiquiatras”, explica. Ela acrescenta que, em alguns casos, o diagnóstico de um filho pode levar à identificação do transtorno em um dos pais.

Para a presidente do Sindicato dos Servidores do Ministério Público do Amazonas (SINDSEMP-AM), Wladia Maia, é fundamental ampliarmos o olhar para além da infância e reconhecermos que o Transtorno do Espectro Autista também faz parte da vida de muitos adultos, inclusive no ambiente de trabalho.

“Como sindicato, entendemos que a informação é o primeiro passo para combater o preconceito e promover inclusão de verdade. Muitos servidores e servidoras podem ter passado anos sem diagnóstico, enfrentando desafios silenciosos que impactam sua rotina, suas relações e sua saúde mental. Por isso, reforçamos a importância do acolhimento institucional, do respeito às diferenças e da criação de ambientes de trabalho mais acessíveis e empáticos.

Falar sobre o autismo na vida adulta é reconhecer histórias, validar experiências e garantir que ninguém precise enfrentar essas dificuldades sozinho. Reforçamos nosso compromisso em promover o diálogo, apoiar nossos filiados e contribuir para uma sociedade mais justa, inclusiva e consciente”, destaca Wladia.

Por fim, Soneide reforça que o diagnóstico, mesmo tardio, pode trazer importantes transformações. “Muitas pessoas relatam um sentimento de alívio, como se finalmente tudo fizesse sentido. Ao mesmo tempo, há um processo de ressignificação da própria história”, conclui. A conscientização, portanto, segue como uma ferramenta essencial para quebrar preconceitos e ampliar o acesso ao cuidado adequado.

Soneide Santos é psicóloga, mestranda em Educação Especial (UFSCar), analista do comportamento, pós-graduada em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) ao autismo e atrasos de desenvolvimento intelectual e linguagem, neuropsicologia, Terapia Cognitivo Comportamental. Mais informações sobre o tema são divulgas no perfil de Instagram @soneidesantos.psi

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