Para o presidente da ABRAN, o grande desafio agora é combater a banalização sem deixar de reconhecer os avanços científicos proporcionados pelos novos tratamentos
(Foto: Divulgação)
O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras” trouxe novas possibilidades para o tratamento da obesidade, mas também acendeu um alerta entre especialistas sobre o uso indiscriminado desses medicamentos. Em entrevista concedida ao portal A Crítica durante o XXX Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN 2026) e III World Congress of Nutrology, em São Paulo, o médico nutrólogo e presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), o médico nutrólogo e professor Durval Ribas Filho, afirmou que a banalização das terapias preocupa. O congresso, que reúne especialistas nacionais e internacionais, acontece até este sábado (26), no Centro de Convenções Frei Caneca.
Segundo Durval Ribas Filho, o problema está no uso das medicações como uma solução rápida e, muitas vezes, sem acompanhamento médico. Para ele, a influência das redes sociais contribui para transformar informações científicas em fórmulas simplificadas de emagrecimento. “A versão de um fato científico, muitas vezes, fica mais robusta do que o próprio fato científico. A mídia social influencia demais esse comportamento”, afirmou. O especialista defende que o tratamento seja individualizado e acompanhado por profissionais de saúde, considerando as condições e necessidades de cada paciente.
O nutrólogo também chama atenção para o estigma que ainda acompanha a obesidade. Segundo ele, há mais de três décadas a medicina reconhece a condição como uma doença, mas muitas pessoas ainda são tratadas como se o excesso de peso fosse apenas resultado apenas de falta de atividade física ou de alimentação inadequada. “O obeso precisa ser acolhido. A discriminação não pode fazer parte do tratamento”, destacou. Durval ressalta ainda que fatores relacionados à obesidade podem começar muito antes da vida adulta, inclusive durante a gestação, reforçando a complexidade da doença e a necessidade de prevenção e cuidado ao longo da vida.
Na avaliação do presidente da ABRAN, as canetas fazem parte de uma estratégia terapêutica, mas não substituem outros pilares do cuidado. “O tratamento da obesidade é uma pirâmide. Não existe mágica”, afirmou. Ele cita como componentes fundamentais o plano alimentar, a atividade física, as mudanças cognitivas e comportamentais, as conexões sociais, a espiritualidade e o acompanhamento médico. Outro ponto destacado é a microbiota intestinal, que, segundo o especialista, tem relação com processos inflamatórios e com o excesso de peso e deve ser considerada dentro de uma abordagem ampla e individualizada.
Durval também observa mudanças no cenário da cirurgia bariátrica desde a chegada dos novos medicamentos. Segundo ele, houve queda na procura por procedimentos em alguns serviços, mas as canetas ainda não substituem a cirurgia. “A cirurgia bariátrica continua apresentando resultados importantes. Em determinados pacientes, ela ainda proporciona uma redução de peso superior à observada com os medicamentos”, afirmou. O médico ressalta ainda que crianças e adolescentes já estão utilizando essas terapias a partir dos 12 anos em situações específicas, o que exige ainda mais responsabilidade, avaliação médica e acompanhamento.
Para o presidente da ABRAN, o grande desafio agora é combater a banalização sem deixar de reconhecer os avanços científicos proporcionados pelos novos tratamentos. Ele alerta que ainda existem dúvidas sobre a manutenção dos resultados após a interrupção dos medicamentos e que muitos pacientes podem voltar a ganhar peso quando deixam o acompanhamento. “Parar totalmente pode ser muito difícil. O ideal é que o paciente seja acompanhado e que qualquer mudança na terapia seja planejada pelo médico”, afirmou. Para Durval, informação de qualidade é uma das principais ferramentas nesse processo: “Caneta é tratamento, não é estética. Usar medicamento apenas para emagrecer por uma questão estética não faz sentido”.