Diagnóstico tardio da doença e persistência entre crianças ainda são desafios para saúde pública
A hanseníase diminuiu no Amazonas, mas a transmissão ainda persiste. (Foto: Department of Pathology/Calicut Mecical College Wikimedia Commons)
O número de casos de hanseníase detectados no Amazonas caiu quase 96% em quatro décadas. De 1981 a 2024, os diagnósticos na região reduziram de 154 para 6,65 casos por 100 mil habitantes, e a classificação mudou de região hiperendêmica para endemicidade média, de acordo com artigo de revisão científica publicado na sexta-feira (24) na Revista Brasileira de Medicina Tropical.
Apesar disso, especialistas em saúde pública alertam que a doença ainda não está sob controle na região amazônica, que tem comunidades geograficamente isoladas e por isso é considerada uma das mais desafiadoras para o combate à doença.
Segundo a análise, só em 2024 o estado notificou 326 casos de hanseníase, sendo que mais de 260 (80%) eram novos diagnósticos. A persistência de casos em crianças e em menores de 15 anos, que representaram 3,4% dos registros, indica que a transmissão continua ativa, especialmente em municípios de difícil acesso.
“A persistência de casos em crianças, o predomínio das formas multibacilares e a ocorrência de pacientes que já chegam ao diagnóstico com incapacidades físicas evidenciam que muitas pessoas continuam sendo diagnosticadas tardiamente”, afirma Carolina Talhari, uma das autoras do artigo e pesquisadora da Universidade do Estado do Amazonas e da Fundação Alfredo da Matta de Dermatologia, principal centro de referência regional.
Avanço científio
O artigo reforça o protagonismo do estado do Amazonas como produtor de conhecimento científico com impacto nacional e internacional.
Em 2024, foram registrados mais de 170 mil casos no mundo, e o Brasil ocupou a segunda posição no ranking mundial de registros da doença, atrás da Índia — os dois países, somados à Indonésia, respondem por quase 80% dos casos globais.
Para Carolina Talhari, além de aumento em investimentos, é preciso atualizar políticas públicas que auxiliem na prevenção, na detecção precoce e no tratamento da doença.
O Amazonas carrega marcas profundas de isolamento social e desafios de saúde pública. A hanseníase começou a se propagar com maior intensidade no estado na segunda metade do século XIX, acompanhando os fluxos migratórios e o boom da borracha, momento em que o confinamento compulsório virou a principal resposta governamental.
Instituições como o Leprosário de Paricatuba e, posteriormente, a Colônia Antônio Aleixo (inaugurada em 1942), simbolizaram essa fase de segregação drástica e internação forçada. Somente nas últimas décadas do século XX, com o surgimento da poliquimioterapia (tratamento que garante a cura e interrompe a transmissão) e a desativação progressiva dos leprosários, a abordagem no estado migrou para o tratamento ambulatorial e humanizado, tendo a Fundação Hospitalar Alfredo da Matta como grande referência no setor.
Durante o século XX, nos momentos de maior descontrole da transmissão, o Amazonas figurou entre as regiões de taxa de endemicidade mais preocupantes do país. Historicamente, o pico das notificações era alimentado pela busca ativa tardia, revelando centenas de novos acometimentos por ano.
Em termos de evolução recente, embora o estado tenha conseguido reduzir progressivamente o indicador geral nas últimas décadas, os registros ainda mostram um volume anual consistente — oscilando com picos acima de 500 novos casos ao ano no meio da década de 2010 e uma média recente que varia entre 300 e 400 novos diagnósticos anuais, concentrações fortemente localizadas na capital, Manaus, e em calhas de rios do interior.
O grande avanço atual reside na capacidade de resposta e rastreio: o estado passou a registrar índices expressivos de cura (ultrapassando os 90%) e foca a atuação na quebra da cadeia de contágio via monitoramento de contatos e diagnósticos precoces.
A hanseníase, que chegou a ser conhecida e estigmatizada como lepra, é uma doença infectocontagiosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae e transmitida pelas vias respiratórias. A doença afeta a pele e nervos e pode causar manchas, dormência e fraqueza muscular.