Entenda como a epilepsia e o acidente vascular cerebral podem impactar pacientes durante e após a gestação
(Foto: Reprodução/Unsplash)
Cerca de 15% das gestações no Brasil são de alto risco, segundo o Ministério da Saúde. Doenças neurológicas podem agravar esse quadro e aumentar complicações para mães e bebês.
Estudo do Journal of Medical and Biosciences Researchaponta que a epilepsia é a condição neurológica mais comum na gravidez, afetando cerca de 15 milhões de mulheres em idade fértil no mundo. O controle inadequado das crises e o uso de medicamentos sem orientação elevam os riscos.
A pesquisa chamada “Gestação e epilepsia: controle das crises e segurança fetal” explica que a epilepsia é caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivas no cérebro. Elas são responsáveis por crises que podem variar em intensidade e manifestação clínica.
A prevalência dessa condição crônica durante a gestação varia entre 0,3% e 0,7%, o que reforça a sua relevância como questão de saúde pública, revela a publicação científica.
Crises mal controladas estão associadas à hipóxia materno-fetal, parto prematuro, aborto, pré-eclâmpsia e possíveis prejuízos ao desenvolvimento fetal. Ainda conforme o estudo, o controle adequado da epilepsia na gravidez é fundamental para reduzir complicações obstétricas e neonatais. De forma paralela, o tratamento medicamentoso também exige cautela e supervisão profissional.
Medicamentos antiepilépticos atravessam a placenta e podem estar associados a malformações congênitas. Defeitos do tubo neural, anomalias craniofaciais, déficits neurocognitivos e malformações cardíacas são exemplos. Entre os medicamentos analisados, fenitoína e fenobarbital demonstram riscos elevados. O estudo também cita a politerapia, que é o uso de mais de um medicamento, como responsável por maior incidência de complicações obstétricas.
Durante a gravidez, alterações fisiológicas podem modificar os níveis séricos dos medicamentos antiepilépticos. Ajustes na dosagem do remédio tendem a ser necessários para manter as crises sob controle e não causar efeitos adversos. Além de procurar um obstetra, as mulheres devem realizar avaliação neurológica antes da gestação, alerta o estudo.
O manejo da epilepsia pode exigir o acompanhamento multidisciplinar entre obstetra e neurologista. Encontrar um neurocirurgião geral se torna necessário em determinados casos. No período pós-parto, o tratamento da condição naspacientes tende a ser mantido, mas varia conforme o resultado de exames e observação médica.
Além da epilepsia, o acidente vascular cerebral (AVC) também pode afetar as mulheres durante a gravidez, diz a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). O alerta da entidade se estende à trombose cerebral. Os dois distúrbios cerebrovasculares têm maior probabilidade de ocorrer em pacientes que sofrem de pré-eclâmpsia, hipertensão ou trombofilias.
Pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Helsinque, na Finlândia, investigou as consequências a longo prazo em 97 mulheres que tiveram AVC isquêmico durante a gravidez ou até três meses após o parto.
Dados da saúde das pacientes foram comparados aos de outras 280 mulheres sem histórico da condição. A partir dessa comparação, os cientistas buscaram entender como a saúde delas evoluiu ao longo de 12 anos.
Os resultados do estudo foram divulgados pela Academia Americana de Neurologia (AAN) e mostraram que as mulheres que sofreram AVC na gravidez ou no pós-parto apresentaram maior risco de desenvolver problemas de saúde posteriormente.
Entre as pacientes investigadas, houve maior incidência de doenças cardiovasculares, como um segundo AVC e eventos cardíacos graves, como fibrilação atrial e insuficiência cardíaca.
O AVC também trouxe impacto psicológico às mulheres. A incidência de depressão foi maior entre as 97 voluntárias analisadas pelo estudo. Outro aspecto investigado pelos estudiosos foi a situação profissional das pacientes vítimas de AVC ao longo do tempo.
Embora a maioria estivesse empregada antes do ocorrido, ao final do estudo uma proporção menor permaneceu ativa no mercado de trabalho em comparação às mulheres não vítimas de AVC.
De acordo com a AAN, a probabilidade de que as 97 pacientes estivessem vinculadas a algum trabalho era menor, enquanto a chance de terem se aposentado precocemente era superior. Os autores identificaram uma possível associação, não necessariamente uma relação direta de causa e efeito, entre o acidente vascular cerebral e problemas posteriores de saúde e emprego.
A AAN explica que os resultados encontrados pela Universidade de Helsinque reforçam a importância do acompanhamento médico contínuo e da prevenção de complicações neurológicas. O suporte psicológico e social para as gestantes que passaram pela condição também é necessário, acrescenta.
Importância do pré-natal em gravidez de risco Gestações consideradas de alto risco, em razão de doenças neurológicas, exigem pré-natal integrado. O acompanhamento médico multidisciplinar previne e identifica precocemente problemas nas gestantes ou bebês. Segundo o Ministério da Saúde, a avaliação ainda reduz riscos, favorece o desenvolvimento saudável do feto, identifica malformações e previne complicações como a pré-eclâmpsia.
De acordo com a Biblioteca Virtual em Saúde, são oferecidos o cartão da gestante, atualização vacinal e exames de rotina nas consultas. O pré-natal permite ainda detectar doenças silenciosas, como hipertensão, diabetes, anemia e sífilis. O diagnóstico possibilita ao especialista direcionar o tratamento mais adequado às gestantes e orientá-las sobre o uso correto de medicamentos, explica o ministério.