Responsável por áreas como saúde da mulher, crianças e adolescentes da Umane destaca a importância da comunicação para que jovens busquem a saúde pública
Evelyn Santos, da Umane, defende que unidades de saúde sejam mais "amigáveis" para atrair o público adolescente. (Divulgação)
Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, ressalta a necessidade de o Estado se aproximar dos jovens para ampliar o acesso aos serviços e reduzir problemas de saúde pública. Entre eles, a gravidez na adolescência. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou recentemente que cerca de 121 mil meninas de 13 a 17 anos de idade já engravidaram alguma vez, o que representou 7,3% daquelas que disseram ter iniciado a vida sexual.
Na pesquisa do IBGE, 98,7% das meninas que engravidaram precocemente frequentavam escolas da rede pública. Em cinco estados do Brasil, o índice de gravidez precoce ultrapassa 10% das estudantes, sendo que o Amazonas tem o maior índice, com 14,12%. Outros dados sobre a iniciação sexual dos adolescentes, de forma consentida, levantam preocupações com a prevenção dessas gestações.
O que é a Umane e qual o trabalho exercido pela organização?
A Umane é uma organização da sociedade civil isenta, independente, sem fins lucrativos, que trabalha pra apoiar projetos que aumentem e ampliem a eficiência e a qualidade do sistema de saúde para as pessoas que vivem no Brasil.
Como esses trabalhos são feitos, exatamente?
A Umane apoia projetos de diversos pesquisadores renomados ao redor do Brasil e também de organizações que se envolvem em projetos pra mudar a realidade e fazer parceria com as secretarias municipais e estaduais de saúde para fazer pilotos, ampliar e melhorar a cobertura do serviço de saúde, principalmente atenção primária, tratar as doenças crônicas não transmissíveis e também dar um apoio na saúde da mulher, criança e adolescente, melhorando o pré-natal, diminuindo a mortalidade materna e também a mortalidade infantil. O nosso foco de atuação está nesses três eixos e nós fazemos essas parcerias com as organizações para que os projetos aconteçam. São mais de 30 projetos apoiados anualmente, em geral.
De que forma é feito o apoio da Umane?
Aportamos recursos financeiros para que os parceiros realizem os projetos nos territórios.
Vocês têm uma parceria com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) no Norte, correto?
Sim.
Como funciona esse trabalho junto à FAS?
Conhecemos a FAS por meio de um edital que a gente lançou junto com o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] para trabalhar nas regiões com pouco acesso a profissionais de saúde, e a FAS submeteu um projeto nesse edital. Temos trabalhado com a FAS e também com outras organizações que atuam no Norte do Brasil, e o que a gente faz com eles é desenvolvimento e instalação de pontos de apoio, principalmente em reservas extrativistas (Resex), para que as populações ribeirinhas tenham acesso à saúde, teleatendimento e demais tecnologias para melhorar o acesso a alguns serviços, mesmo em locais bastante distantes. O trabalho com a FAS tem sido de muito aprendizado e a gente sempre gosta de reconhecer o Brasil dentro do Brasil.
Dentro da questão de atenção primária e de saúde da mulher, quais são os problemas que vocês encontram com mais frequência?
Olha, varia muito de região para região, porque a jornada da gestante na rede de saúde, se a gente está falando de uma área de conservação ambiental na Amazônia, combinado com o período de estiagem, é difícil que chegue um profissional especializado ou que a gestante saia do território, caso ela precise de ter identificado, por exemplo, uma condição de risco do pré-natal. Em outros locais muito urbanos, a gente tem a mesma vulnerabilidade, pode ser relacionada a transporte, por exemplo, mas se traduz, por exemplo, em não ter um recurso pra um ou três, pra chegar numa unidade mais especializada.
São situações parecidas, certo?
As barreiras acabam tendo características diferentes, embora as naturezas sejam parecidas, por exemplo, quando gente fala de deslocamento, entendimento, serviços, adesão. Como a gestação tem sete consultas que tem que ser feitas nesse período de nove meses, é um desafio contra o tempo, realmente.
No Norte, além do distanciamento já conhecido, que outras questões você consegue destacar?
Não é exclusivo de atenção primária, é no sistema de saúde como um todo no Brasil. Na região Norte, a gente vê uma menor densidade de profissionais e também de hospitais, muitas vezes, mas a distribuição e organização dessas unidades fica muito com as secretarias. Então, eles conseguem fazer um ótimo trabalho com o que está disponível, mas são questões de selecionar, reter e manter profissionais, principalmente em áreas remotas. É um desafio para todo mundo que tem esse tipo de território no seu estado.
A Umane divulgou que, de 2020 a 2022, foram feitos 11 mil partos de meninas menores de 14 anos. Como atuam nesses casos, não só na saúde mas também na segurança dessas meninas?
A Umane apoia projetos com o sistema de saúde. Esse projeto também foi com a Universidade Federal de Pelotas para mostrar que existem muitos partos nessas adolescentes. Então é necessário que a rede de saúde pública, as secretarias municipais e estaduais se articulem com assistências sociais e as outras instituições públicas, locais, para endereçar cada caso individualmente. Então, a Umane apoiou essa pesquisa, mas quem tem que desenvolver a política pública e fornecer assistência de face é o Estado. A gente trabalha com as pesquisas e os apoios com pilotos em temas pontuais.
Nesses trabalhos realizados, vocês conseguiram detectar quais seriam os motivos de tantos casos de gravidez precoce? Se foi falta de informação ou falta de acesso a materiais?
Como a gente trabalha só com fichas, a gente consegue identificar esses nascimentos de gestantes adolescentes por meio das fichas de nascidos vivos, aquela que a gente vai para, no cartório, tirar a certidão de nascimento. Nessa ficha não tem nenhuma informação relacionada a isso, esse estudo, por si, não consegue ir atrás disso. Mas, a literatura científica tem alguns sinais relacionados a própria escolaridade, à cultura do país e outras questões que acabam levando a esse número elevado.
O IBGE identificou que o Amazonas é o estado que possui o maior índice de gravidez na adolescência. Como avalia isso e o que pode ser feito para diminuir os casos?
O sistema de saúde, hoje, tem tanto aconselhamento quanto anticoncepcionais disponíveis para as adolescentes. Muitas vezes as unidades de saúde podem se beneficiar de tentar ficar mais amigáveis com a adolescente. Eu não lembro a última vez que eu vi um adolescente entrando nas unidades de saúde. Eles têm uma dificuldade de procurar o serviço. Também tem um tabu em torno do acesso a determinados tipos de serviço. Então, tem que trabalhar muito essa comunicação. Incentivar o jovem a frequentar o serviço público de saúde pode ser muito importante, assim como também a conscientização de toda a sociedade em termos de educação, para que a gente tenha ali um aconselhamento familiar mais adequado desde a adolescência.
Vocês tem parcerias com secretarias de saúde no Norte?
Sim, a Umane apoia diversos projetos no Norte do Brasil. Por exemplo, a FAS tem parceria com as prefeituras e municípios onde ela atua, é condição para o projeto poder funcionar. A gente tem parceria também com o programa Saúde e Alegria, que atua na região de Santarém e em toda a região do Tapajós, e com a Ufopa [Universidade Federal do Oeste do Pará] por meio da Universidade de Saúde Pública de São Paulo, que tem uma parceria com eles para desenvolver trabalhos relacionados à pressão alta e a pré-natal na região de Santarém e vários municípios.
A gravidez na adolescência é um tema complexo de se tratar em um estado extenso como o nosso? Como é levada a informação para áreas remotas?
O projeto que a gente tem apoiado, com o projeto Saúde e Alegria e o Instituto de Estudos para Política de Saúde, junto com o IDIS [Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social] e o BNDES, tem levado informações a populações ribeirinhas na sua própria linguagem. Se tem uma população da etnia Munduruku, que a gente tem dificuldade de fazer um pré-natal adequado, além das dificuldades inerentes à geografia daquele território tradicional, a gente vai tentando tirar as barreiras que são possíveis de serem endereçadas. Nesse projeto, por exemplo, foi feito todo um trabalho de elaborar vídeos e folhetos de saúde pra orientação do pré-natal na língua daquela população. Isso é apenas uma forma, mas acho que conhecer o território, visitá-lo e entender as barreiras efetivas daquela população naquele contexto é o que permite desenvolver soluções relativamente simples que vão ser importantes pra melhorar a saúde daquela população.
Soluções simples?
Sim, nem sempre é uma tecnologia super rocket science. Às vezes é algo simples, mas que a gente tem que ir no território, aprender a não ter uma solução pronta e estar disposto a desenvolver junto.