Saúde

Especialistas defendem que diagnóstico tardio do TDAH também pode ajudar

Esquecimento, procrastinação e desorganização podem acompanhar uma pessoa por décadas antes de levar à investigação. Especialistas afirmam que o diagnóstico, mesmo tardio, pode ajudar a compreender essa trajetória

Thiago Melo
15/08/2026 às 18:16.
Atualizado em 15/08/2026 às 18:16

Para algumas pessoas, a descoberta do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) acontece somente depois dos 30, 40 ou até 50 anos (Divulgação)

Para algumas pessoas, a descoberta do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) acontece somente depois dos 30, 40 ou até 50 anos. O diagnóstico pode surgir quando dificuldades antigas começam a interferir de maneira mais evidente no trabalho, nos relacionamentos e na rotina.

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, com manifestações que se iniciam na infância, mas nem sempre são reconhecidas naquele período. Em muitos casos, a pessoa aprende a compensar as dificuldades ou simplesmente cresce acreditando que é desorganizada, preguiçosa ou pouco disciplinada.

Para a psicóloga Bárbara Couto, o diagnóstico clínico considera os sintomas, a trajetória do paciente e o histórico familiar. A avaliação neuropsicológica também pode ser utilizada para investigar atenção, memória e funções executivas, principalmente quando existe dúvida em relação a outras condições.

"O laudo não é uma sentença. É um documento que explica como aquela pessoa funciona e abre caminho para adaptações. Ele não diz o que você não pode fazer. Ele ajuda a entender como você pode fazer de um jeito que funcione melhor para você". Luanda Rosa, neuropsicóloga

Sinais que podem atravessar décadas

 Entre as manifestações do TDAH estão desatenção, hiperatividade e impulsividade, que podem aparecer de maneiras diferentes em cada pessoa. Segundo Bárbara, quem apresenta predominantemente sintomas de desatenção pode ter dificuldade para concluir tarefas, organizar atividades, manter o foco em trabalhos longos e lembrar compromissos. Já a hiperatividade pode se manifestar pela inquietação constante, dificuldade para relaxar e necessidade de estar sempre em movimento.

“São pessoas que adiam o início de tarefas, então são procrastinadoras, estão sempre perdendo objetos, pois colocam coisas fora do lugar e tem dificuldade de encontrar, se distrai com atividades e barulhos em volta e tem dificuldade para se lembrar de compromisso ou obrigação. Já o hiperativo é aquele que tem dificuldade de ficar sentado, fica mexendo a cadeira, fica balançando os pés, as mãos, é sempre muito inquieto, não consegue relaxar, se sente muito ativo, como se tivesse um motor ligado nas situações. É comum terminar as frases antes das pessoas que começaram a falar, é impulsivo e tem dificuldade para esperar a sua vez”, enumera Bárbara.

Descobrir depois dos 40 também pode fazer diferença

O diagnóstico tardio não significa que a condição tenha surgido naquele momento. Segundo a neuropsicóloga Luanda Rosa, características do TDAH podem permanecer sem identificação durante décadas, especialmente quando a pessoa desenvolve estratégias próprias para lidar com as dificuldades.

“O problema não é o TDAH não existir, e sim a sociedade não ter olhado para ele durante muito tempo”, explica a especialista. “Muitos adultos cresceram ouvindo que eram ‘estranhos’, ‘tímidas demais’, ‘intensas demais’, mas nunca tiveram acesso a uma avaliação adequada.”

Para Luanda, receber um diagnóstico na vida adulta pode trazer uma nova compreensão sobre experiências que acompanharam a pessoa por muitos anos.

“É comum ouvir relatos de alívio. Não porque a pessoa tenha se tornado alguém diferente, mas porque finalmente encontra uma explicação para experiências que a acompanharam durante toda a vida”, diz a Dra. Luanda. “Mas também há luto. Luto por um diagnóstico que não veio antes, por tratamentos que poderiam ter sido diferentes, por uma infância que poderia ter sido mais compreendida.”

A investigação, portanto, não deve ser feita apenas a partir de listas de sintomas encontradas na internet. “Mais do que observar comportamentos atuais, o especialista procura compreender como essa pessoa se desenvolveu desde a infância e de que forma essas características influenciaram sua vida”, explica a Dra. Luanda.

“Pessoas com TDAH têm baixa autoestima, estão sempre frustradas com elas, com os erros constantes, têm sentimento de inadequação muito grande porque têm rendimento muito menor que as outras pessoas e precisam estar sempre se esforçando muito”. Bárbara Couto, psicóloga

Tratamento medicamentoso

 No caso do TDAH, o tratamento pode envolver acompanhamento psiquiátrico e psicológico, conforme as necessidades de cada paciente. Bárbara destaca que a medicação deve ser acompanhada regularmente por um médico e pode ser combinada a intervenções psicológicas.

“É preciso fazer monitoramento regular pelo médico para garantir que os medicamentos sejam seguros. Mas o uso do medicamento ajuda muito a minimizar os sintomas do TDAH, pois é um cérebro que não funciona direito quimicamente falando e a medicação atua onde há falhas”, enfatiza

.

A terapia também pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de organização, manejo dos impulsos e planejamento da rotina. “Quando o TDAH é descoberto, é muito importante que familiares entendam o comportamento para apoiar e não cobrar ações e atividades que são difíceis para ele”, finaliza Bárbara Couto.

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