Atenção

Internações de idosos por gripe sobem 150% e ligam alerta no Norte

Baixa adesão vacinal na Amazônia e envelhecimento das defesas do corpo elevam risco de infarto e perda de autonomia em idosos

Jhonny Lima*
18/04/2026 às 10:28.
Atualizado em 18/04/2026 às 10:28

Dr. Drauzio Varella ressalta que a gripe pode ser devastadora em idosos (Jhonny Lima/A CRÍTICA)

As hospitalizações de idosos (60+) por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) decorrentes da influenza saltaram 150% em relação ao mesmo período do ano anterior no Brasil.

Os dados são preocupantes e mostram que o país atravessa um momento de transformação demográfica sem precedentes, mas a infraestrutura de saúde e a consciência coletiva parecem não acompanhar a velocidade do envelhecimento populacional.

No primeiro trimestre de 2026, o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica (Sivep-Gripe) acendeu o sinal vermelho. O dado, apresentado pela farmacêutica Sanofi durante um encontro estratégico com especialistas e jornalistas em São Paulo (SP), é o preâmbulo de uma crise que une negligência, variações climáticas e a fragilidade biológica de um sistema imune que já não responde como antes.

No encontro, estavam presentes o médico oncoligista e comunicador Dráuzio Varella, a infectologista e membro do Comitê de Infecções Respiratórias Virais da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Nancy Bellei, bem como a médica geriatra e presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Gerontologia e Geriatria (SBGG), Dra. Maisa Kairalla, a infectologista do Instituto Emilio Ribas e chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana, Rosana Richtmann, e do médico cardiologista Mucio Tavares, que é coordenador do Projeto Insuficiência Cardíaca da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

Especialistas reunidos em São Paulo alertam para a gravidade da gripe e os riscos cardiovasculares em idosos

 Drauzio Varella foi enfático ao afirmar que gripe não é resfriado. “O principal problema é fazer as pessoas entenderem o que é a gripe. Não é um resfriado, é uma doença que causa inflamação nos pulmões e dor muscular intensa, que impede a realização de atividades diárias”, declarou.

A disparidade regional desenha um mapa de vulnerabilidade acentuada. Enquanto as regiões Sul e Sudeste lutam para manter patamares próximos aos 53% de cobertura vacinal, a região Norte amarga um índice alarmante: em 2025, apenas 33% da população idosa foi imunizada. Essa lacuna de proteção é o que os especialistas chamam de "vazio imunitário", agravado pelas dificuldades logísticas e pelo acesso limitado aos serviços de saúde na Amazônia.

Durante o encontro em São Paulo, a infectologista do Instituto Emílio Ribas, Dra. Rosana Richtmann, lamentou o cenário.

"A cobertura vacinal dos 60+ em 2025 foi triste. No Norte, estamos falando de quase 30 e poucos por cento. Quanto menor a cobertura, mais casos graves e mortes teremos", alertou.

Richtmann revelou um dado contundente: no último ano, 10% das pessoas hospitalizadas por gripe no Brasil faleceram — e, dessas mortes, 75% ocorreram em idosos. "São mortes em teoria preveníveis", sentenciou.

A conversa entre os especialistas revelou que o problema vai muito além do pulmão. O conceito de imunossenescência — o envelhecimento natural das defesas do corpo — é o ponto central. O Dr. Drauzio Varella, com sua clareza característica, pontuou que a sociedade ainda subestima o vírus.

"A gente ainda subestima a gripe, mas ela pode ser devastadora em pessoas mais velhas. Os dados mostram impactos relevantes que poderiam ser evitados com a vacinação".

Encontro teve a participação das comunicadoras Astrid Fontenelle e Silvia Poppovic, além da influenciadora Mari Krüger

 A Dra. Richtmann detalhou que a resposta à vacina padrão nesta população é pior porque o organismo "esquece" como reagir a novos antígenos. "O idoso produz menos anticorpos. Por isso precisamos de novas tecnologias para forçar essa resposta imune".

É aqui que entra a vacina de alta dose, como o Flunity-HD. Enquanto a vacina comum oferece 15 microgramas de antígeno, a de alta dose entrega 60 microgramas (quatro vezes mais potência). A análise de efetividade Flunity-HD, a maior já conduzida com idosos, comprovou que essa dose reforçada reduziu em até 31,9% as hospitalizações por gripe confirmada em laboratório, trazendo benefícios substanciais para a saúde pública.

Um dos diálogos mais impactantes envolveu a saúde cardiovascular. A geriatra e presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Gerontologia e Geriatria (SBGG), Dra. Maisa Kairalla, trouxe à tona evidências de que a gripe é um gatilho para infartos.

"Hoje damos importância ao fenômeno inflamatório como desencadeante da instabilização de uma placa de gordura na artéria", explicou.

Dados apresentados no encontro da Sanofi indicam que, nos primeiros sete dias de infecção por gripe, o risco de um infarto aumenta em seis vezes. Em alguns estudos, esse risco chega a ser dez vezes maior, acompanhado por uma probabilidade oito vezes superior de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

"Não apareceu um único estudo que mostrasse que não existe relação entre as duas coisas", reforçou a médica. A gripe, portanto, é um evento inflamatório sistêmico que "quebra" o coração de quem já possui comorbidades.

Além do risco de morte, a morbidade da gripe retira a dignidade. O impacto da hospitalização é devastador para a musculatura. Um idoso que fica uma semana acabado perde de 10% a 15% da massa muscular. Ele chega no hospital andando e muitas vezes não sai andando", afirmou a Dra. Maisa Kairalla. Essa perda, chamada de sarcopenia, leva à necessidade de nutrição por sonda e à perda da independência funcional.

A Dra. Margareth Dalcomo, pesquisadora sênior da Fiocruz, trouxe um olhar demográfico sobre essa injustiça social. “Temos quase 7 milhões de octogenários no Brasil. A vacina é absolutamente estratégica. Eu me sinto uma ‘bomba química’ porque tomo todas as vacinas; eu ficaria muito zangada se pegasse uma gripe grave tendo meios de prevenir", brincou, mas com um fundo de seriedade crítica. Dalcomo ressaltou que ver leitos de CTI ocupados por idosos com Influenza A e B é um retrocesso civilizatório para um país que já foi protagonista em vacinação.

Durante o evento, participaram dos paineis as jornalistas e apresentadoras Astrid Fontenelle e Silvia Poppovic,   além da influenciadora Mari Krüger, que contaram sobre a importância da imunização e a dismistificação das notícias falsas a respeito da eficácia das vacinas contra a gripe.

A encontro encerrou com um apelo ético de Drauzio Varella sobre o papel da família. O idoso é o veículo de exemplo para as próximas gerações. "Você não cria filho com palavras, mas com exemplo. O avô que toma a vacina deixa um ensinamento de proteção".

Com a temporada de 2026 batendo à porta, o recado dos especialistas reunidos pela Sanofi em São Paulo é direto: a vacinação de alta dose não é apenas uma escolha médica, mas um pacto coletivo pela vida. Em um país de dimensões continentais e contrastes profundos, a prevenção é o único caminho para garantir que o bônus da longevidade não se transforme no ônus da invalidez.

*Repórter viajou a convite da Sanofi

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