Alimentação, obesidade, álcool, anabolizantes e até microplásticos estão entre os fatores investigados para explicar o avanço da questão
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Ter dificuldade para engravidar deixou de ser um problema atribuído apenas às mulheres. Hoje, especialistas estimam que os fatores masculinos estejam presentes em cerca de metade dos casos de infertilidade conjugal, enquanto pesquisas mostram uma queda expressiva na concentração de espermatozoides nas últimas décadas.
O cenário acende um alerta para hábitos e condições que podem comprometer a saúde reprodutiva dos homens. Embora existam causas genéticas e doenças específicas, boa parte dos fatores de risco está ligada ao estilo de vida.
Alimentação inadequada, obesidade, sedentarismo, estresse, privação de sono, tabagismo, consumo excessivo de álcool e uso de anabolizantes estão entre os principais vilões. Paralelamente, estudos investigam o possível impacto de poluentes ambientais, como os microplásticos, sobre a fertilidade.
Os espermatozoides são sensíveis ao estresse oxidativo, processo que provoca danos celulares e pode reduzir sua qualidade. Por isso, especialistas recomendam uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes, grãos integrais, fibras e gorduras boas, além de nutrientes como ômega-3, vitaminas C e E, zinco e selênio.
Em sentido contrário, o consumo frequente de ultraprocessados, carnes processadas, excesso de álcool e outros hábitos pouco saudáveis favorece processos inflamatórios e pode prejudicar a produção, a mobilidade e a qualidade genética dos espermatozoides.
A especialista em reprodução humana Marília Bonow ressalta que a fertilidade é influenciada pelas escolhas feitas ao longo da vida.
"Apesar de não serem os únicos responsáveis pela infertilidade, fatores como tabagismo, privação de sono, estresse crônico, obesidade e consumo excessivo de ultraprocessados podem reduzir as chances de gravidez. Por outro lado, hábitos saudáveis ajudam a reduzir a inflamação do organismo, melhorar níveis de hormônios e diminuir os danos oxidativos às células que acontecem naturalmente ao longo do tempo", afirma.
Dormir bem, praticar atividade física regularmente e manter o peso adequado também ajudam a preservar a saúde reprodutiva.
Entre as causas clínicas, a principal é a varicocele, dilatação das veias do cordão espermático que aumenta a temperatura dos testículos e compromete a produção de espermatozoides. A condição atinge entre 15% e 20% dos homens em idade fértil e está presente em cerca de 40% dos casos de infertilidade masculina.
"A varicocele afeta o funcionamento dos testículos, prejudicando a produção de espermatozoides. Esse distúrbio está presente em cerca de 40% dos homens com dificuldades para engravidar", explica o urologista Flávio Antunes.
Como muitas vezes não apresenta sintomas, o diagnóstico costuma ocorrer apenas durante a investigação da infertilidade.
Outra preocupação envolve os microplásticos. Estudos recentes identificaram essas partículas em testículos humanos, mas ainda não há comprovação de que elas sejam responsáveis pela queda da fertilidade. Em animais, porém, pesquisas já demonstraram redução da produção de espermatozoides.
"Precisamos de mais estudos que comprovem a relação dos microplásticos com a queda na fertilidade masculina, mas as descobertas atuais são um passo importante nessa direção", afirma o especialista em reprodução humana João Guilherme Grassi.
O uso de anabolizantes também preocupa especialistas. Os derivados sintéticos da testosterona reduzem a produção natural dos hormônios responsáveis pela formação dos espermatozoides.
"Os anabolizantes comprometem significativamente a produção de espermatozoides. Isso pode levar à infertilidade, em alguns casos de forma permanente. O organismo para de produzir os hormônios FSH e LH, cessando assim a produção natural de espermatozoides e testosterona."
Segundo Grassi, o problema vai além da infertilidade. "Nós também vemos casos de disfunção erétil e perda de libido em pacientes que usam anabolizantes, porque o excesso de esteroides desregula todo o sistema hormonal masculino."
O consumo excessivo de álcool também compromete a saúde reprodutiva. Estudos mostram pior qualidade do sêmen e alterações hormonais em homens que bebem com frequência.
"As pesquisas mostram que pacientes inférteis que consomem álcool diariamente têm uma qualidade de sêmen e características hormonais significativamente piores. Quanto mais álcool, pior. Não temos como definir um nível absolutamente seguro de consumo de álcool, mas se você quer beber, não se exceda."
Para os especialistas, a melhor estratégia continua sendo investir em hábitos saudáveis e procurar avaliação médica quando houver dificuldade para engravidar. Em muitos casos, identificar precocemente a causa da infertilidade aumenta significativamente as chances de sucesso no tratamento.