Com mais acesso a acompanhamento médico, mulheres ressignificam a menopausa e enxergam a transição como etapa de autocuidado
Mais do que um tratamento, a discussão sobre menopausa reflete uma mudança de mentalidade: entender essa fase não como uma interrupção (Divulgação)
Por muito tempo, a menopausa foi associada ao envelhecimento, à perda da feminilidade e ao fim de um ciclo produtivo e sexual da mulher. Cercada por silêncio e desinformação, a fase também carregou medos relacionados aos sintomas físicos e às mudanças hormonais. Hoje, esse cenário começa a mudar.
Com mais informação, acesso a especialistas e discussões abertas sobre saúde feminina, a menopausa tem sido compreendida como uma transição natural que pode ser vivida com equilíbrio, autonomia e qualidade de vida. Nesse contexto, a terapia de reposição hormonal (TRH) volta ao centro do debate, agora com uma abordagem mais individualizada e baseada em avaliação clínica.
Segundo a ginecologista Nely Alencar, a terapia hormonal tem como principal objetivo melhorar a qualidade de vida durante a menopausa. “A reposição hormonal hoje foca na melhora da qualidade de vida, aliviando fogachos (calorões), suores noturnos e insônia”, explica.
Entre os principais benefícios apontados pela médica estão o controle dos sintomas mais comuns da menopausa, como ondas de calor, irritabilidade e secura vaginal. A especialista também destaca ganhos que vão além do conforto imediato. A TRH auxilia na manutenção da densidade mineral óssea, reduzindo riscos de osteoporose e fraturas, além de favorecer a saúde sexual. “Melhora a lubrificação vaginal, reduz dores na relação sexual e pode aumentar a libido”, afirma.
Outro impacto importante está no bem-estar emocional e cognitivo. De acordo com Nely, a terapia pode contribuir para reduzir ansiedade e sintomas depressivos, além de ajudar no combate ao chamado “nevoeiro cerebral”, que costuma afetar memória e concentração. A melhora da qualidade do sono também aparece entre os efeitos positivos, especialmente pela redução dos suores noturnos.
Quando iniciada precocemente — antes dos 60 anos e dentro de até 10 anos após o início da menopausa —, a terapia pode ainda oferecer benefícios cardiovasculares e metabólicos. “Pode proteger os vasos sanguíneos e ajudar no controle do metabolismo, combatendo o ganho de peso”, pontua.
Apesar dos benefícios, a reposição hormonal não é indicada para todos os casos. A médica reforça que o tratamento exige avaliação individual e acompanhamento especializado. Entre as contraindicações absolutas estão histórico pessoal ou atual de câncer de mama, câncer de endométrio, trombose ativa, embolia pulmonar, doenças cardiovasculares graves, doença hepática importante e sangramento vaginal de causa desconhecida.
Há ainda situações consideradas contraindicações relativas, como hipertensão ou diabetes descompensados, enxaqueca com aura, endometriose e histórico familiar importante de câncer de mama, que exigem análise mais criteriosa.
Antes de prescrever a terapia, o médico avalia histórico clínico, sintomas, antecedentes familiares e realiza exames laboratoriais e de imagem. “A avaliação individual antes de prescrever a reposição hormonal é um processo abrangente para garantir segurança e eficácia, pesando riscos e benefícios para cada paciente”, destaca Nely.
Essa análise permite personalizar o tratamento conforme o perfil da paciente, definindo via de administração, tipo de hormônio e dosagem. Formulações transdérmicas, como géis e adesivos, por exemplo, podem ser preferíveis para mulheres com maior risco cardiovascular. A recomendação, segundo a especialista, é iniciar sempre com a menor dose eficaz para controle dos sintomas.
Mais do que um tratamento, a discussão sobre menopausa reflete uma mudança de mentalidade: entender essa fase não como uma interrupção, mas como parte do ciclo feminino que merece informação, acolhimento e decisões baseadas em evidências.