Novas terapias ampliam perspectivas para pacientes com o câncer de sangue ainda considerado incurável e reforçam discussão sobre a chamada cura funcional da doença
Especialistas nacionais e internacionais discutiram avanços e desafios no tratamento do mieloma múltiplo durante evento realizado em São Paulo (Foto: Divulgação)
São Paulo (SP) - Receber um diagnóstico oncológico, geralmente representa um impacto na vida de qualquer pessoa. Mesmo sabendo que a ciência está cada dia mais avançada e os tratamentos de câncer são, na maioria das vezes, bem sucedidos, saber que se tem uma condição dessa pode ser uma informação difícil de digerir no início, mas a boa notícia é que isso não significa mais uma sentença final.
O mieloma múltiplo é um tipo de câncer de sangue, ainda incurável, que afeta a medula óssea e que pode causar diversas dores nos ossos e problemas renais aos portadores da doença. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam mais de 187 mil novos casos anuais no mundo. Já no Brasil, entre 2023 e 2025, mais de 12 mil diagnósticos foram registrados, segundo o Painel Oncologia Brasil, do Ministério da Saúde.
Mieloma múltiplo é um tipo de câncer do sangue que se desenvolve a partir da multiplicação desordenada de plasmócitos na medula óssea
O diagnóstico do mieloma costuma levar tempo, pois seus sintomas iniciais muitas vezes são ignorados, principalmente porque incluem dores nas costas, cansaço e atingem o público 60+. Quem nessa idade nunca sentiu uma dor nas costas?
O mieloma acontece quando os plasmócitos (que são células da medula óssea que produzem anticorpos) começam a se multiplicar de forma desordenada e sem exercerem sua função. Esse excesso de plasmócitos acaba atrapalhando a produção natural de outras células do sangue e comprometem o sistema imunológico.
No mieloma múltiplo, o excesso de plasmócitos anormais na medula óssea pode comprometer a produção de células do sangue e provocar problemas como dores e fraturas ósseas
Os sintomas mais comuns incluem fraqueza, infecções persistentes, insuficiência renal, dores e/ou fraturas ósseas. Apesar de ser uma doença ainda sem cura, atualmente existem tratamentos que podem garantir uma vida funcional e livre de dores aos pacientes.
Entre os tratamentos mais conhecidos para câncer estão a radioterapia ou quimioterapia, procedimentos eficazes que utilizam radiação ou medicamentos, por via intravenosa, que atuam reduzindo o tumor ou “limpando” o sangue de células malignas.
No caso específico do mieloma múltiplo, para pacientes reincidentes ou refratários, ou seja, que recaíram na doença ou não responderam ao primeiro tratamento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou recentemente no Brasil a combinação de dois medicamentos como segunda linha de tratamento para o mieloma.
Essa combinação faz parte de um estudo clínico chamado MajesTec-3, que administra TECVAYLI®️ (teclistamabe) em combinação com DALINVI®️ (daratumumabe) subcutâneo (SC), ambos empresa farmacêutica Johnson & Johnson, para pacientes com mieloma que já enfrentaram uma primeira linha de tratamento.
Os resultados deste estudo têm sido promissores, como afirma a Dra. Vânia Hungria, hematologista, cofundadora e presidente do Conselho Consultivo Científico da International Myeloma Foundation (IMF) América Latina.
“Foi aprovado no Brasil a combinação de Teclistamabe e Daratumumabe para pacientes de mieloma que já fizeram um primeiro tratamento e recaíram, inclusive sendo excelente para o paciente já da primeira recaída. Essa combinação tem um resultado excelente, 8 de 10 pacientes após três anos de tratamento estão vivos e bem, o que chamamos de sobrevida livre de progressão, o que seria cerca de 84% dos pacientes de mieloma múltiplo. Isto é sem precedentes em tratamentos como monoterapia ou combinação de terapia, é um marco enorme no tratamento do mieloma múltiplo”, explicou a médica.
Hematologista Vânia Hungria destaca os resultados de novas combinações terapêuticas para pacientes com mieloma múltiplo que apresentam recaída após o primeiro tratamento. Foto: Junio Matos/A CRÍTICA
Esses medicamentos atuam de forma complementar e bem específica no tratamento do mieloma múltiplo. A combinação de ambos potencializa a terapia e seus resultados garantem uma sobrevida livre de progressão da doença.
O teclistamabe (vamos chamá-lo de Tec) é um anticorpo bioespecífico que funciona como uma espécie de elo entre o sistema imunológico e o câncer. Esse medicamento possui duas extremidades: uma se liga ao linfócito T, uma das principais células de defesa do organismo, e a outra se conecta à célula do mieloma. Ao unir as duas, ele coloca a célula de defesa frente a frente com o tumor.
De modo simples, imagine um policial tentando encontrar um criminoso em meio a uma multidão. O Tec pega esse policial pela mão, o leva até o suspeito e diz: "É esse aqui." A partir desse momento, o próprio linfócito T reconhece o alvo e destrói a célula cancerígena.
Já o daratumumabe (vamos chamá-lo de Dara) é um anticorpo monoclonal que age como um marcador. Ele reconhece uma proteína chamada CD38, presente na superfície das células do mieloma. Ao se ligar a essa proteína, ele sinaliza ao sistema imunológico quais células devem ser eliminadas.
É como colocar um adesivo fluorescente em um alvo com a mensagem "ataque esta célula". A partir daí, as células de defesa conseguem identificá-la e destruí-la mais facilmente. Além disso, o próprio Dara também pode contribuir diretamente para a morte dessas células.
A combinação de ambos os medicamentos potencializa o tratamento do mieloma pois enquanto o Dara constrói um microambiente controlado ajudando a identificar as células malignas, o Tec atua diretamente na destruição delas.
A advogada paulistana, Mônica Deganello, 59, foi diagnosticada com mieloma múltiplo em 2017, após voltar de férias com a família. Ela conta que começou com uma dor de cabeça e após o diagnóstico, quatro meses de quimioterapia, dois transplantes de medula óssea e quatro anos de manutenção com lenalidomida (medicamento que atua controlando o mieloma), ela entrou no grupo de pesquisa com Tec-Dara, ou seja, combinando ambos os medicamentos no tratamento.
Para ela, a vida permanece a mesma desde quando iniciou este novo tratamento. Sem alterações significativas e com mais qualidade de vida.
Diagnosticada com mieloma múltiplo em 2017, a advogada Mônica Deganello, de 59 anos, relata que mantém uma rotina de trabalho e atividades físicas durante o tratamento. Foto: Junio Matos/A CRÍTICA
Hoje em dia, receber um diagnóstico de mieloma não significa uma sentença de morte, pois com todos os avanços científicos recentes, é possível não apenas conviver, mas viver com qualidade de vida apesar da doença. É o caso da aposentada Nicia Ribeiro, 68 anos, que apesar do diagnóstico desde 2019, não deixa de realizar as tarefas do dia a dia e até participa de shows.
Diagnosticada com mieloma múltiplo em 2019, Nicia Ribeiro, de 68 anos, mantém uma rotina ativa e relata qualidade de vida mesmo convivendo com a doença. Foto: Junio Matos/A CRÍTICA
Joint Educational on Multiple Myeloma
São Paulo recebeu, entre os dias 24 e 25 de julho, a primeira edição do Joint Educational on Multiple Myeloma, que é o Evento Educacional Conjunto sobre Mieloma Múltiplo, em tradução livre. O congresso teve como público-alvo médicos hematologistas, residentes, profissionais da área da saúde de vários cantos do país e contou com o total de 26 palestrantes nacionais e internacionais que abordaram o tratamento do mieloma múltiplo, bem como os principais desafios no enfrentamento da doença.
O evento é uma iniciativa do Grupo Brasileiro de Mieloma (GBRAM), em parceria com a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e International Myeloma Society (IMS), que é a Sociedade Internacional de Mieloma.
O hematologista paraense, Thiago Carneiro, foi um dos palestrantes do evento. No painel “Personalizando o tratamento: alinhando estratégias terapêuticas às necessidades do paciente com mieloma múltiplo”, o especialista abordou as principais ações médicas na terapia do paciente de mieloma. Ele afirma que o norte do Brasil possui desafios logísticos importantes no enfrentamento desta condição.
“O Brasil não é um só país, nós vivemos várias realidades. Nós vivemos em um continente. E a região norte tem peculiaridades em relação a acesso, cultura, opiniões dos pacientes, distância do município em que vive o paciente até o local onde ele tem que fazer tratamento.Tudo isso deve ser contextualizado pelo médico que faz o tratamento do seu paciente nesta região. E é importante que a gente consiga lutar para melhorar as nossas estruturas, para absorver toda essa evolução e conseguir proporcionar esses tratamentos excepcionais para os pacientes”, pontuou o médico.
Falar sobre a cura definitiva de uma doença ainda incurável pode ser interpretado como uma ambição utópica, entretanto a cura funcional pode ser considerada uma realidade alternativa que está cada dia mais estabelecida, que é quando o paciente continua convivendo com a doença, mas ela permanece controlada por longos períodos.
A diretora de assuntos médicos regulatórios da Johnson & Johnson Brasil, Damila Trufelli, reconhece que a pesquisa clínica no Brasil tem crescido bastante, o que coloca o país como uma potência científica no mundo. Ela diz que ainda não podemos afirmar uma cura definitiva para o mieloma múltiplo, mas a cura funcional já é uma realidade.
“Esses pacientes precisam entender que o mieloma é uma doença incurável, mas graças a estes novos tratamentos, eles estão vivendo uma vida melhor e com muito mais qualidade. Muitos trabalham, fazem faculdade e têm uma vida normal. Hoje em dia falamos sobre a cura funcional do mieloma. Não é que o paciente não tenha mais a doença, mas sim que o paciente tem uma vida normal apesar da doença”, apontou.