Tratamento da obesidade na terceira idade deve combinar alimentação adequada e exercício de resistência para preservar a massa muscular, a força e a autonomia
(Foto: Divulgação)
Não existe idade para parar de se cuidar — e também não existe idade para deixar de procurar viver bem. A obesidade na terceira idade exige atenção especial porque, nessa fase, o objetivo do tratamento não deve ser simplesmente alcançar um determinado número na balança, mas melhorar a composição corporal, preservar a massa muscular e manter a autonomia.
Para o médico nutrólogo e diretor da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), Dr. Nelson Iucif Júnior, um dos primeiros desafios é convencer o idoso a mudar hábitos que, muitas vezes, foram construídos ao longo de décadas. A entrevista ao Portal A CRÍTICA aconteceu durante o XXX Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN 2026) e III World Congress of Nutrology, realizado até o dia 26, em São Paulo. O evento reúne especialistas para discutir, entre outros temas, obesidade, envelhecimento e preservação da massa muscular.
Segundo Nelson Iucif Júnior, a pessoa é considerada idosa a partir dos 60 anos no Brasil e, ao chegar a essa fase, geralmente já possui hábitos alimentares e de vida bastante consolidados. Por isso, a mudança precisa ser construída de forma gradual e, principalmente, explicando os benefícios para a saúde.
A orientação envolve alimentação adequada, sono, rotina e atividade física. O especialista ressalta, porém, que simplesmente caminhar ou dar uma volta na praça não substitui necessariamente o treinamento necessário para preservar a musculatura.
No tratamento da obesidade em idosos, a preservação da massa muscular é uma das principais preocupações. Em alguns casos, medicamentos utilizados em adultos mais jovens, inclusive as chamadas canetas emagrecedoras, podem ser indicados, mas sempre após avaliação médica individualizada. O problema é que uma perda de peso sem estratégia pode também significar perda de músculo.
A própria programação científica do CBN 2026 inclui entre os temas centrais a preservação da massa muscular durante o tratamento da obesidade.
A alimentação também precisa ser planejada para proteger a musculatura. Nelson destaca a importância da ingestão adequada de proteínas, distribuída ao longo do dia, podendo chegar, em determinadas situações clínicas, a cerca de 1,5 grama por quilo de peso corporal ao dia, conforme avaliação individual. Recomendações de proteína para idosos variam conforme as condições de saúde, estado nutricional e função renal, e fontes da ABRAN destacam a importância do consumo proteico para manutenção da massa muscular.
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Outro ponto destacado pelo especialista é que o peso isoladamente não conta toda a história. Existe o chamado fenômeno da “obesidade paradoxal”, observado em determinados grupos de idosos, em que pessoas com IMC mais elevado podem apresentar melhores desfechos do que aquelas com peso mais baixo. Por isso, Nelson chama atenção para a avaliação da gordura abdominal e da composição corporal.
“O mais importante é a cintura abdominal. Ela é um dos principais indicadores”, afirma.
A avaliação do idoso, portanto, deve considerar diferentes parâmetros e, sobretudo, sua funcionalidade, força, autonomia e presença ou controle de doenças, em vez de perseguir exclusivamente um número na balança.
Nesse processo, a participação da família pode ser decisiva. De acordo com o médico, muitas vezes é uma mulher da família, um filho ou uma filha quem estimula o idoso a procurar atendimento. A mudança, porém, tende a ser mais efetiva quando a família também participa. “A família precisa se adequar e fazer junto”, destaca.
Para Nelson, não existe uma idade em que já não valha a pena começar a cuidar da saúde: mesmo pessoas com 90 anos podem obter benefícios ao iniciar atividades físicas adequadas às suas condições. O objetivo é controlar doenças, preservar a funcionalidade e manter a autonomia para realizar tarefas, sair de casa e visitar a família. Cuidar do peso, da alimentação e dos músculos na terceira idade está diretamente ligado à qualidade de vida.