Resultado chama atenção para condições de trabalho nas unidades intensivas e ganha contornos particulares no AM, onde há 90 registros de médicos intensivistas para 572 leitos de UTI e coronariana
A rotina em uma Unidade de Terapia Intensiva exige decisões rápidas, contato constante com pacientes em estado crítico e exposição a situações de morte, fatores que podem contribuir para o desgaste emocional dos profissionais (Foto: Junio Matos / Arquivo AC)
Quase metade dos médicos que trabalham em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil apresenta nível elevado de esgotamento emocional. O índice chega a 48,5% entre os profissionais ouvidos em pesquisa nacional divulgada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), na última terça-feira (15), durante coletiva de imprensa acompanhada pela reportagem de A CRÍTICA.
O resultado chama atenção para as condições de trabalho nas unidades intensivas e ganha contornos particulares no Amazonas, onde há 90 registros de médicos intensivistas para 572 leitos de UTI adulto e coronariana.
O levantamento ouviu 2.338 profissionais de 26 estados e do Distrito Federal e analisou aspectos relacionados à saúde mental e às condições de trabalho nas unidades intensivas. Além dos 48,5% com esgotamento emocional elevado, 31,2% apresentaram nível moderado. Somados, os dois grupos representam 79,7% dos participantes. Apenas 20,3% foram classificados com baixo nível de esgotamento.
A pesquisa não apresenta um percentual específico de burnout para o Amazonas. Os dados sobre a distribuição dos profissionais, no entanto, revelam diferenças entre as regiões brasileiras, com menor disponibilidade de profissionais qualificados no Norte e Nordeste.
Ex-presidente da AMIB na gestão 2024–2025, Patrícia Mello afirmou que as diferenças na disponibilidade de recursos humanos entre as regiões estão relacionadas às condições enfrentadas pelos profissionais nas UTIs.
“É essencial que a gente revisite esse dimensionamento quantitativo e qualitativo dos recursos humanos em nossas UTIs e, sim, no Norte e no Nordeste essa deficiência é mais proeminente quando comparada ao Sul, Sudeste e Centro-Oeste”, afirmou.
No Amazonas, os 90 registros de especialistas em Medicina Intensiva correspondem a 2,08 registros para cada 100 mil habitantes. Considerando os 572 leitos adultos e coronarianos existentes no Estado, a relação é de 6,36 leitos para cada intensivista registrado.
O Amazonas possui ainda três programas ativos de residência médica na especialidade, com 22 residentes em formação: oito no primeiro ano, sete no segundo e sete no terceiro.
Os resultados nacionais indicam diferenças no esgotamento conforme a qualificação profissional. Entre médicos intensivistas, 44,5% relataram alto nível de esgotamento emocional. Entre médicos generalistas que trabalham nas UTIs, a proporção chegou a 52,3%.
O mesmo padrão apareceu em outros componentes associados ao burnout. Na amostra geral, 45,6% dos entrevistados apresentaram grau moderado ou elevado de despersonalização, fenômeno relacionado ao distanciamento emocional em relação a pacientes e colegas. Do total, 29,6% estavam no nível moderado e 16%, no elevado.
Na comparação por qualificação, 12,7% dos intensivistas apresentaram alto grau de despersonalização, contra 20,1% entre os generalistas. A baixa satisfação com o próprio desempenho profissional também foi mais frequente entre os médicos generalistas: 50,7%, contra 39,8% entre os intensivistas.
“Quando a gente fala que o profissional que é titulado, que tem a RQE, tem menos burnout do que o não titulado, do que o não especialista, é muito claro. Se eu tenho uma formação técnica para exercer uma missão, eu vou ter mais segurança, consequentemente eu tenho menos estresse no exercício profissional”, explicou Patrícia.
Segundo ela, a menor disponibilidade de profissionais com formação específica torna o cenário regional particularmente relevante.
“Onde eu tenho menos profissionais qualificados, a prevalência de burnout será maior”, acrescentou.
Pesquisa nacional da Associação de Medicina Intensiva Brasileira ouviu 2.338 profissionais (Foto: Junio Matos)
O inquérito também avaliou hábitos relacionados à qualidade de vida dos profissionais. Entre os médicos sem qualificação específica em Medicina Intensiva, os pesquisadores identificaram menor prática de atividades físicas e de lazer, alimentação menos adequada, piores indicadores de sono e menor participação em atividades sociais.
A qualidade do descanso aparece entre os pontos de atenção. Entre os profissionais sem qualificação específica, 7,3% relataram não ter nenhum dia de descanso reparador durante a semana.
Apenas 7,6% disseram conseguir descansar adequadamente durante seis ou sete dias, proporção que chega a 15,4% entre os especialistas em Medicina Intensiva.
Segundo o estudo, a carga elevada de trabalho, a exposição constante a situações críticas e a necessidade de tomar decisões rápidas estão entre os fatores potencialmente relacionados ao desgaste emocional dos médicos que atuam nas UTIs.
O levantamento aponta ainda a qualificação específica como possível fator de proteção e recomenda a implementação de programas de promoção da saúde ocupacional e o fortalecimento de redes de apoio aos médicos que trabalham em terapia intensiva.
Para os profissionais do Amazonas, a discussão sobre saúde mental também remete à experiência vivida durante a pandemia de Covid-19. Em janeiro de 2021, Manaus enfrentou uma crise de abastecimento de oxigênio hospitalar em meio ao aumento de internações e mortes provocadas pela doença.
Questionada por A CRÍTICA sobre possíveis efeitos daquela experiência na saúde mental dos intensivistas, a 2ª vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Rosylane Rocha, destacou que o trabalho em UTIs já envolve contato constante com pacientes críticos e risco de morte, cenário que se intensifica em períodos de elevada mortalidade.
No Amazonas, há 90 registros de especialistas em Medicina Intensiva para 572 leitos adultos (Foto: Junio Matos)
“Todas as vezes que nós temos, como foi o caso da pandemia ou alguns casos em que há um número maior de mortes na UTI, é sempre uma situação, não apenas para o médico, mas para todos os profissionais daquela UTI, de sofrimento da saúde mental. E isso daí está relacionado, sim, ao burnout”, afirmou.
A médica ressaltou ainda a necessidade de observar as condições das unidades onde há maior mortalidade.
“É sempre importante saber, dentro dessas UTIs, onde está acontecendo o número maior de mortes desses pacientes, o que está acontecendo. E isso daí tem, logicamente, um impacto muito grande na saúde mental dos médicos”, completou.
A pesquisa não avaliou especificamente os efeitos atuais da crise do oxigênio sobre os profissionais que trabalharam nas UTIs de Manaus durante a pandemia. Portanto, os dados não permitem estabelecer uma relação direta entre aquele episódio e os índices atuais de esgotamento no Estado.