Demora na busca por atendimento contribui para que maioria dos pacientes chegue à FCecon com câncer colorretal em estágio avançado
Atendimento médico aos primeiros sinais de sangramento eleva as chances de cura (Arquivo/FCecon)
Apesar do sangue nas fezes ser um sinal de alerta por grande parte da população, muitos moradores das regiões Norte e Centro-Oeste ainda deixam de procurar atendimento médico imediatamente. No Amazonas, esse comportamento ajuda a explicar o porquê a maioria dos pacientes com câncer colorretal chega à Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon) quando a doença já está em estágio avançado.
Uma pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center, feita pela Nexus, revelou que, entre os moradores do Norte e Centro-Oeste que já perceberam sangue nas fezes, apenas 39% procuraram ajuda médica imediatamente. Outros 43% afirmaram que não fizeram nada e apenas esperaram o sintoma passar, o maior percentual registrado entre todas as regiões brasileiras.
A situação preocupa diante da estimativa de que o Amazonas registre 380 novos casos de câncer de intestino em 2026, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mencionados pelo chefe do Serviço de Cirurgia Oncológica da FCecon, Rogério Lima, em entrevista à reportagem de A CRÍTICA.
Especialista em cirurgia oncológica, Rogério Lima afirma que a FCecon recebe a maior parte dos casos diagnosticados no Amazonas e também pacientes encaminhados de outros estados da Amazônia Legal.
“A FCecon atende a maior parte dos casos de câncer colorretal no Amazonas e também da Amazônia Legal. As estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) são de 380 novos casos de câncer de intestino para o Amazonas, no ano de 2026”, explica o médico cirurgião.
Segundo o especialista, o diagnóstico ocorre predominantemente por busca passiva, quando a pessoa procura uma unidade de saúde apenas depois do aparecimento de sintomas.
“O diagnóstico desses tumores, em sua maior totalidade, se dá por busca passiva, ou seja, o indivíduo só busca atendimento quando tem o sintoma e, geralmente, sintomas já graves”, descreve.
O câncer colorretal é um tumor que se desenvolve no intestino grosso, formado pelo cólon e pelo reto. Em muitos casos, a doença começa a partir de pólipos, pequenas lesões que podem crescer lentamente e se transformar em câncer ao longo dos anos. Quando identificada precocemente, a doença apresenta altas chances de cura.
Nos estágios iniciais, o tumor pode não provocar sintomas. Quando eles aparecem, os sinais mais frequentes incluem sangue nas fezes, alteração persistente do funcionamento intestinal, dor ou desconforto abdominal, sensação de evacuação incompleta, perda de peso sem causa aparente, anemia e cansaço excessivo, conforme destaca a pesquisa.
Para Rogério Lima, fatores sociais e características próprias da região também influenciam a demora na busca por atendimento. O especialista explica que parte da população pode relacionar o sangue nas fezes a problemas considerados menos graves, como parasitoses e hemorroidas.
“Temos que lembrar que na nossa região o nível de escolaridade de parte da população afeta nessa busca por ajuda médica, feito tardiamente muitas das vezes, e que a parasitose intestinal está presente no cotidiano associado às questões de saneamento básico, principalmente no interior, sendo o sangue nas fezes e mudanças de hábito intestinal muito associados à essas parasitoses, hemorroidas ou alimentação”, ressalta Lima.
A pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center, feita pela Nexus, mostra que 76% dos entrevistados do Norte e Centro-Oeste consideram grave ou muito grave a presença de sangue nas fezes ou uma alteração intestinal que dure mais de um mês. Entretanto, apenas 62% associam esses sintomas ao câncer colorretal, o menor índice entre as regiões do país.
O levantamento ouviu 2.015 pessoas com 16 anos ou mais nas 27 unidades da Federação, entre os dias 25 e 30 de junho de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Embora a maioria dos casos ainda ocorra em pessoas com mais de 50 anos, o aumento da doença entre adultos mais jovens tem chamado a atenção de especialistas.
Dados do A.C.Camargo Cancer Center indicam crescimento médio anual de 7,6% nos casos de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos entre 2000 e 2023.
Na FCecon, o chefe do Serviço de Cirurgia Oncológica, Rogério Lima afirma que essa mudança também tem sido percebida entre os pacientes atendidos. “Percebemos que sim. Possivelmente os dados sobre esses aumentos serão publicados muito em breve.”
Ainda não há uma única explicação para esse crescimento, mas fatores relacionados ao estilo de vida podem contribuir para o aumento da incidência. Alimentação rica em produtos ultraprocessados e carnes processadas, baixo consumo de fibras, sedentarismo, obesidade, consumo excessivo de bebidas alcoólicas e tabagismo estão entre os principais fatores de risco.
A presença de sangue nas fezes não significa necessariamente que a pessoa esteja com câncer. O sintoma também pode ocorrer em casos de hemorroidas e outras alterações intestinais. Ainda assim, qualquer sangramento persistente precisa ser avaliado por um profissional de saúde.
Rogério Lima orienta que a população não espere o sintoma desaparecer e procure atendimento para que a causa seja investigada.
“Procure os serviços de saúde para uma maior investigação. Além disso, busque ter um estilo de vida saudável. Evite alimentos embutidos e industrializados, como as salsichas, linguiças, bolachas e refrigerante”, orienta.
O especialista também recomenda aumentar o consumo de alimentos naturais, abandonar o tabagismo, reduzir o consumo de bebidas alcoólicas e praticar exercícios regularmente.
“É importante inserir na alimentação, alimentos mais naturais possíveis, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais, feijões, grãos e sementes. Evite o fumo e as bebidas alcoólicas. E faça atividade física regularmente”, recomenda o médico especialista.
Além do sangue nas fezes, alterações persistentes no ritmo intestinal, dores abdominais recorrentes, perda de peso sem explicação, anemia e cansaço prolongado também devem ser investigados. Mesmo pessoas jovens devem procurar avaliação médica caso esses sinais persistam, pois a idade, isoladamente, não elimina a possibilidade da doença.
Conforme o chefe do Serviço de Cirurgia Oncológica da FCecon, Rogério Lima, a demora em buscar atendimento tem reflexo direto no estágio em que os pacientes começam o tratamento. “A maioria dos casos já chegam até a FCecon avançados.”
O diagnóstico precoce interfere diretamente nas possibilidades de tratamento e no prognóstico do paciente. Quando o tumor é identificado antes de se espalhar para outros órgãos, as chances de controle da doença são maiores e o tratamento pode ser menos complexo.
“Sim, o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura. Se descoberto e tratado cedo, as chances de cura podem chegar à quase 100%”, pontua o médico.
Em todo o Brasil, o Inca estima 53.810 novos casos de câncer colorretal por ano para o triênio de 2026 a 2028, o que coloca a doença como o segundo tipo de tumor com maior incidência entre os brasileiros.
Ainda assim, o desconhecimento sobre os exames de rastreamento permanece elevado. A pesquisa identificou que 68% dos entrevistados do Norte e Centro-Oeste nunca ouviram falar da pesquisa de sangue oculto nas fezes, exame utilizado para detectar pequenas quantidades de sangue que não são visíveis a olho nu. Apenas 13% disseram já ter realizado o procedimento.
A pesquisa de sangue oculto nas fezes pode ser utilizada no rastreamento de pessoas sem sintomas e ajuda a identificar quem precisa ser encaminhado para uma colonoscopia. Um resultado positivo não confirma a presença de câncer, mas indica a necessidade de investigação complementar.
A colonoscopia é considerada o principal exame para o diagnóstico e o rastreamento do câncer colorretal, pois permite visualizar o interior do intestino, identificar lesões, retirar pólipos e realizar biópsias.