Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021
JANEIRO SUFOCANTE

Em 20 dias, mortes por Covid superam a soma dos últimos três meses no AM

Média diária de óbitos por Covid-19, que foi de 11 em novembro, saltou para 63 no mês atual; foram, até aqui, 1261 perdas para a doença em janeiro, segundo os dados oficiais



000_8YP896_DBC4DC79-0707-45C0-BE74-993604C2F815.jpg (Foto: Michael Dantas / AFP)
21/01/2021 às 19:51

Luciene Furtado Ferreira. Victor Hugo e Gabriela Cativo Andreoletti. Izinha Toscano. Rafael 'Marupiara' Araújo. Roci Mendonça. José Carlos Valim. Arthur Araújo.  Ana Maria Pinheiro. Amado Ali Hajoj e Zahieh Abdel Karim Hassan Hajoj. Bráulio Guidalevich. Sirene Marques. Thiago Acris Barroso. Danyelle Christine. Fernando Lima.  E tantos, tantos outros.

Estas pessoas não são meros números. São pais, mães, filhos, filhas, netos, netas, avós e avôs que perderam suas vidas neste sufocante janeiro de 2021 no Amazonas. Um mês que ainda nem terminou, mas já é o mais brutal da pandemia de coronavírus desde março de 2020, quando a doença chegou ao Amazonas: são  1261 mortes nos primeiros 20 dias deste mês, mais do que a soma de outubro, novembro e dezembro - que somaram 1158. A triste marca foi atingida nesta quinta-feira (21), quando 159 novas mortes foram confirmadasgerando uma média de 63 óbitos por dia por Covid-19.



Em outubro, foram 406 mortes nos 31 dias do mês. Em novembro, mês das eleições municipais e em que aglomerações eram vistas com frequência durante a campanha eleitoral, foram 338 mortes. Já em dezembro, quando os primeiros alertas a respeito dos perigos das reuniões em festas de fim de ano foram dados, e o governo chegou a esboçar uma restrição das atividades, depois suspensa por pressão popular, o Estado viu 414 mortes.  A conta estourou em janeiro.

Entre 1º e 4 de janeiro - data em foi publicado decreto restringindo as atividades não essenciais no Amazonas - foram 119 óbitos . Ou seja, em apenas quatro dias, já eram mais de 30% das mortes de novembro - um claro sinal de que a situação já era mais grave. De lá para cá, o que se viu foi uma disparada de casos, de internações e, por consequência direta, óbitos. Um cenário de terror para quem atua na linha de frente.

Pesadelo

"O que a gente está vivendo é um pesadelo. Os hospitais fizeram planos de contingência baseados no que aconteceu em abril e maio e rapidamente foram inundados por pacientes graves em uma proporção sem precedentes", relata o médico intensivista Mauro Lippi, que atua no Hospital Check-Up e viralizou no último dia 3 de janeiro ao fazer um alerta, no Instagram, do que os hospitais estavam enfrentando. "Nossa preocupação maior é que os pacientes comecem a chegar e não tenham onde ser colocados para ter assistência adequada", disse ele, na ocasião.

O alerta do dia 3 virou a realidade dos dias seguintes, quando todos os hospitais, sejam eles públicos ou privados, se viram sem vagas diante da explosão de casos - e de casos mais graves. Com mais pacientes, veio a crise de abastecimento no oxigênio, alertada no dia 6 de janeiro por A CRÍTICA e que tomou proporções incontroláveis no dia 14 do mesmo mês.

"Não só os pacientes de UTI, como os pacientes em enfermarias necessitam de oxigênio em alto fluxo e fisioterapia respiratória intensiva para se manterem fora da ventilação mecânica invasiva, e isso faz com que o consumo de oxigênio seja muito maior do que o habitual. Trabalhar com dezenas de pacientes entubados, tendo a informação de que temos poucas horas de autonomia de oxigênio sem uma garantia firme de reabastecimento do mesmo soma mais um estresse pro dia - a - dia da equipe que já está lidando diariamente com mortes, com dramas familiares, com preocupações pessoais, perda de colegas de profissão...  além de gerar o desespero entre os familiares e os próprios pacientes, que obviamente entendem o que está acontecendo", relata o profissional de saúde.

Sepultamentos em alta 

O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz/Amazônia, que considera que a segunda onda da Covid-19 no Amazonas começou em agosto, chamou a atenção, em texto divulgado para seus contatos pessoais, para a média de sepultamentos ocorridos entre 13 e 19 de janeiro, atingindo números inéditos até então. " Outro indicador que reflete a gravidade da epidemia é o explosivo número de sepultamentos entre 13 e 19 de janeiro de 2021, com uma média diária de 191, um padrão inédito na história de Manaus e quase 6 vezes maior do que o padrão habitual", destaca ele.

Foto: Michael Dantas / AFP

Ele também destaca a alta quantidade de óbitos domiciliares - que são reflexo de quem, sem condição de atendimento nos hospitais, se vê condenado a morrer em casa. Entre 13 e 19 de janeiro, segundo o levantamento do epidemiologista, foram 27 mortes domiciliares diárias em média.  "É interessante refletir sobre o indicador de mortes em domicílio, já que Manaus chocou a humanidade em 14 de janeiro, quase que exclusivamente, pelo fato de suas enfermarias hospitalares terem sido transformadas em espécies de “câmaras de asfixia”, já que dezenas de vítimas foram a óbito sem oxigênio medicinal. (...) No entanto, este evento surreal e sem paralelo durante a pandemia, acabou ocultando outro problema até mais trágico e desesperador: o das dezenas de pessoas que foram a óbito em casa sufocadas e sem assistência médica".

Chamando a vacina de uma "alentadora realidade", o epidemiologista destaca que seus efeitos só poderão ser sentidos daqui alguns meses e defende a necessidade de um lockdown na cidade - quando se fecham todas as atividades, sem exceção, permitindo apenas a saída paraa compra de alimentos e para hospitais - , " ou veremos esta tragédia se aprofundar ainda mais, ceifando centenas de vidas e causando mais sofrimento e dor para milhões de Amazonenses e angústia na humanidade como um todo".

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Jornalista de A CRÍTICA
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