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Cotidiano
LINCHADOS

Amazonas registrou 56 mortes por linchamentos nos últimos três anos, diz SSP

As 56 pessoas mortas eram suspeitas de crimes como roubos e estupros. Neste ano, duas pessoas foram mortas dessa maneira no Estado 29/03/2018 às 07:36 - Atualizado em 29/03/2018 às 10:28
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Vídeos das agressões fatais, que “viralizam” na Internet, são usados pela DEHS para identificar, indiciar e prender os agressores. Foto: Reprodução
Joana Queiroz Manaus (AM)

A descrença nas instituições está estimulando o desejo da população de fazer justiça com as próprias mãos. Esse é o diagnóstico do promotor de justiça Rogério Marques, que atua na 3ª Vara do Tribunal do Júri, para a escalada de linchamentos e tentativas registrados nos últimos anos no Amazonas. De acordo com os dados da Secretaria  de Segurança Pública (SSP-AM), 56 pessoas suspeitas de crimes como roubos e estupros foram mortas pela população em linchamentos entre os anos de 2015 e 2017.

Neste ano, duas pessoas morreram por linchamento. A SSP-AM, no entanto, não tem números concretos de quantas pessoas foram resgatadas das mãos dos algozes pela polícia.

Com vários anos de atuação na área criminal, o promotor Rogério Marques disse que o número de pessoas que escaparam de linchamentos aumentou bastante nos últimos anos. Entre os casos, segundo ele, há muitos casos de pessoas que disseram terem sido confundidas com ladrões. “Elas chegam nas audiências de custódia agradecendo a polícia por ter salvado a vida delas”, conta.

“A falta de credibilidade das instituições e a sensação de impunidade promovem no cidadão a noção de que ele não tem a que instância recorrer. Aí ferem as outras pessoas com um senso de justiça”, analisa o promotor. “Alheios ao Estado, os ‘tribunais do crime’ criam uma justiça paralela”, atesta ele.

Sessões públicas

Durante as sessões públicas de agressões, os suspeitos são espancados com pernamancas, pedaços de ferro, cadeiras, tijoladas e outros objetos que as pessoas encontram pela frente.

Na semana passada, no bairro Novo Israel, na Zona Norte da capital, um homem ainda não identificado foi acusado de roubo por um grupo de pessoas. Ele tentou escapar das agressões fugindo pelo telhado das casas. “Ele começou correr por cima dos telhados das casas da rua Romanos e veio cair aqui na rua Jerusalém, quando varou aqui no meu telhado”, contou um comerciante que preferiu não se identificar.

Sorte dele que, no momento que estava sendo espancado, a dona de casa Érica Souza, 37, viu a sessão de agressão e, além de ter avisado a polícia, interveio e clamou para que cessassem o espancamento do desconhecido. “Eu não sou a favor de bandido, mas ele é um ser humano e ninguém nem sabia se ele era ladrão mesmo”, disse a mulher. Após ser salvo, policiais levaram o homem para a delegacia.

Na última segunda-feira (26), dois homens foram espancados por um grupo de pessoas após roubarem uma gráfica na avenida Loris Cordovil, no bairro Alvorada 1, Zona Centro-Oeste. Na fuga, a moto deles deu pane mecânica e várias pessoas aproveitaram o momento e espancaram a dupla com socos e chutes, principalmente no rosto. Eles também “escaparam” da morte e foram presos.

'Investigamos e prendemos'

O que mais chama a atenção das autoridades de segurança é que os “justiceiros” não só espancam e matam, mas também filmam tudo e publicam nas redes sociais, como forma de expressar que a “justiça foi feita”.

Em muitos casos, até menores participam das sessões de tortura, sem nenhum medo de serem identificados e responderem posteriormente pelo crime. Para o titular da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), Juan Valério, o quadro é preocupante.

O delegado diz que a população cria a falsa impressão de que está fazendo justiça com as próprias mãos e que quem participa das sessões acredita que vai ficar no anonimato e impune. Juan Valério, entretanto, informa que todos os casos que chegam à DEHS são apurados e os responsáveis, presos. “Nas filmagens em redes sociais buscamos identificar essas pessoas que poderão vir ser indiciadas e presas”, destaca.

Juan Valério alerta para o risco de pessoas inocentes acabarem sendo mortas. “É um ledo engano fazer justiça com as próprias mãos. Essas pessoas têm que saber que a punição fica por conta do Estado no processo legal. O que nos preocupa é que podem ocorrer situações, quando os ânimos ficam muito exaltados, em que pessoas inocentes acabem sendo linchadas no meio da confusão, sem nem saber porque estão sendo agredidas”, diz.

O delegado destaca ainda que, nessas sessões de espancamento, no momento de fervor, muitas pessoas não chegam a participar ativamente, mas acabam incitando a violência e colaborando para o crime aconteça.

Dois crimes bárbaros


Edvan foi morto após cometer um crime também brutal no ínicio do mês. Foto: Arquivo/AC

Edvan da Silva, 38, não teve a mesma sorte dos homens agredidos no Novo Israel e Alvorada. No dia 10 deste mês, ele foi linchado por populares, que, armados com tijolos, facas, picaretas e perna-mancas, o espancaram até a morte. O crime ocorreu no bairro Novo Reino 2, na Zona Leste. Ele foi morto, de acordo com a Polícia Militar, depois de ter estuprado e assassinado a adolescente Juliana Lira Rodrigues, 13, que foi abordada por ele quando retornava de uma festa.

Edvan foi visto saindo do terreno baldio, onde teria violentado a moça, e depois foi perseguido por dezenas de pessoas que o alcançaram e o mataram, no quarto de uma casa, onde tentou se esconder. De acordo com os peritos do Instituto de Criminalística (IC), o corpo da vítima apresentava múltiplos ferimentos.

Polícia Civil checa filmagens

Vídeos das agressões fatais, que “viralizam” na Internet, são usados pela DEHS para identificar, indiciar e prender os agressores por homicídio. “Nas filmagens em redes sociais buscamos identificar essas pessoas”, disse o delegado Juan Valério.

Números

27 é o número de linchamentos registrados no Estado em 2016, o ano mais violento do intervalo, seguido do ano de  2015, com 18 mortes, e 2017, com 14. Nesse ano, já foram dois crimes dessa natureza foram registrados pela SSP-AM.

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