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Manaus
SEM RECEBER

Azione dá calote em funcionários que trabalharam em projeto da 'nova' Fucapi

Empresa que ficou por três meses na gestão educacional da Fucapi não pagou salários e rescisões. Há relatos de profissionais que abandonaram empregos de anos para ingressar no "sonho" da fundação 08/11/2018 às 15:06
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Parte dos profissionais que denunciaram o calote à reportagem (Foto: Antônio Lima)
Vitor Gavirati Manaus (AM)

Um grupo de profissionais contratados pela Azione Education para atuar na Fucapi quando a empresa assumiu a área educacional da fundação vai ingressar com nova denúncia no Ministério Público do Trabalho (MPT-AM) após não receber salários e direitos trabalhistas referentes ao vínculo trabalhista.

Há relatos de profissionais que abandonaram empregos de anos para ingressar no projeto da Azione e estão sem receber até sete meses de remuneração.

“Recebi o convite para um projeto novo. Nesse convite foi me dado um prazo para assumir o novo cargo e fui literalmente coagido a sair do meu antigo emprego onde tinha mais de 5 anos de casa. Pedi saída imediata e tive um prejuízo financeiro muito grande, pelas causas trabalhistas que não recebi e poderia ter recebido com uma saída”, contou um dos integrantes do grupo que deixou uma instituição de ensino de Manaus para assumir cargo de coordenação na Fucapi.

“Fui contratado pela Azione e o que me foi prometido por carteira de trabalho assinada e documentos eu nunca fui remunerado por isso. Isso contou sete meses, tendo que viver sem remuneração. Teve o prejuízo financeiro, mas fica também muita magoa por conta desse sonho e todas as ofertas que se mostraram uma tremenda enganação. Com tudo que eu imaginava receber da outra empresa, foram quase duzentos mil reais de prejuízo pessoal”, afirmou.

A primeira denúncia feita pelo grupo contra a Azione foi arquivada pelo MPT-AM. Com a chegada da nova gestora à Fucapi, 89 pessoas foram contratadas especificamente pela Azione para atuarem na fundação, segundo o grupo que procurou a reportagem. Em julho, três meses depois de a Azione entrar na Fucapi e anunciar uma série de projetos e investimentos da ordem de R$ 50 milhões, uma audiência de conciliação oficializou a desistência da empresa em assumir os projetos educacionais da fundação.

De acordo com Alessandro Dias, um dos contratados pela Azione para o projeto na Fucapi, após o desligamento dos profissionais, a Azione pediu o prazo de três meses para poder pagar as rescisões e os salários atrasados.

“A gente sabe pela Justiça que o prazo correto seria dez dias, mas muita gente esperou. Algumas pessoas entraram na Justiça e entre um prazo e outro eles mandavam e-mails dizendo ‘olha, a gente está tentando e, no final do mês que vem, a gente vai pagar’. Aí vinha o prazo e ‘não, aconteceu um problema’. O último e-mail eles chegaram numa decisão que iriam pagar em três parcelas, uma de 20% e duas de 40%, sendo a primeira no final de outubro. Isso não aconteceu”, afirmou Alessandro, que destacou também os prejuízos dos companheiros de grupo. 

“Teve colega que até hoje não conseguiu se recompor no mercado, ter uma nova oportunidade. Muita gente entrou em depressão porque tinha dívida de banco, dívida de escola dos filhos. Teve gente que vendeu o carro para poder quitar a dívida. O prejuízo não é só esse ‘não recebi’. O lastro de prejuízo foi bem maior do que a gente consegue visualizar. As famílias foram afetadas, a imagem profissional foi afetada e isso leva tempo para recuperar”, comentou.


E-mail enviado pelo advogado da Azione falando sobre o pagamento dos débitos com funcionários. Foto: Reprodução

Receio de investidor pôs fim ao sonho de nova Fucapi

Desde novembro de 2017, o Ministério Público do Estado (MPE-AM) busca uma solução judicial para os problemas da Fucapi. Em janeiro, o órgão divulgou que a fundação possui cerca de R$ 100 milhões em dívidas e entrou com ação na Justiça para que as matrículas fossem suspensas. 

O MP-AM não deu aval para que a Azione assumisse as operações educacionais da Fucapi. Em entrevista ao Portal A Crítica, o CEO da empresa, Aldous Santana, afirmou em abril que houve um desmembramento da instituição e que caberia à Azione apenas a administração da área educacional. O acordo foi firmado com o Conselho Diretor, sem a participação do Ministério Público.

Questionado sobre os atrasos ontem (7) e hoje (8), via chamada telefônica e WhatsApp, Aldous respondeu dizendo que ainda entraria em contato com a reportagem para se posicionar, mas não retornou até a publicação desta matéria.

O Portal A Crítica teve acesso a e-mails enviados pelo CEO da Azione com os contratados e em um deles, há uma espécie de justificativa para o insucesso do projeto na administração da área educacional da Fucapi.

“Entramos na Fucapi e nunca tivemos a segurança jurídica para que houvesse o aporte devido à discordância do Ministério Público, que foi contrário por diversos motivos, mas sempre focou na Azione e pouco na Fundação; Com a instabilidade, o investidor ficou receoso em aportar e só nos cobrava a segurança jurídica para efetivar o combinado, temos todos os documentos que comprovam isso; Por motivos de não aporte, chegamos a problemas financeiros graves; Com a desistência do negócio fucapi (sic) e reformulação do projeto, voltamos a fase do aporte, que está próximo”, afirma Aldous na mensagem enviada em 20 de julho.

No mesmo e-mail, Aldous tenta acalmar o grupo. “Observem que nós só temos que ter a tranquilidade para o investidor, para buscar a resolução, estamos realmente muito próximos dela, e pedimos apenas mais um pouco de paciência apesar de toda adversidade”, disse o CEO.


CEO da Azione trocou e-mail com o grupo de funcionários pela empresa para explicar dificuldade no pagamento. Foto: Reprodução

O principal investidor, que negociou com a Azione a gestão da Fucapi, foi o banco dos Emirados Árabes BK Investments, de acordo com as declarações de Aldous em abril.

Contratação “indireta” e credibilidade dos líderes levou grupo à Fucapi

#FucapiDay foi o nome do evento em que Aldous Santana apresentou a Azione à comunidade acadêmica da Fucapi e à imprensa. Segundo Aldous, a partir de então, todo dia 24 de abril ficaria instituído como um dia de celebração e de balanço para o alcance de metas da nova gestão na fundação.

Essa foi apenas uma das ideias de Aldous para a Fucapi que ficaram no papel. Assim como o fim do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a chegada de uma unidade da rede de cafeterias Starbucks a Manaus, o wifi gratuito para o entorno da sede da fundação (na Zona Sul), editais com a liberação de até R$ 150 mil para apoio a startups locais e a inauguração de uma escolinha de futebol do inglês Liverpool.


#FucapiDay foi realizado em centro de convenções na Zona Sul de Manaus. Foto: Antônio Lima

Da mesma forma com que fascinou a população em geral, a série de propostas para a Fucapi encantou os profissionais que acabaram fechando vínculos trabalhistas com a Azione e embarcaram no projeto. A credibilidade dos líderes de equipes que estavam sendo formadas foi um dos fatores que fez com que os funcionários aderissem à ideia.

“O que me levou foi a credibilidade de quem fez o convite. Ele era meu chefe na outra instituição, um professor de muito respeito, tendo atuado em outras instituições. Me chamou por saber do potencial que eu tinha, por ser um cargo de confiança. Ele também de certa forma foi convencido a isso. Isso tudo casou com uma nova proposta de vida que eu queria”, comentou o profissional citado anteriormente e que não quis se identificar. 

“Todo mundo teve a contratação por pessoas que foram contratadas antes e montava sua equipe. A credibilidade desse líder levou todos a serem convencidos a entrar na proposta. Me julgo um cara bem sensato, tive parâmetro de confiança, mas temos que ficar bem atentos nisso”, avaliou.

Alessandro Dias afirma que a frustração pela não concretização do projeto da Azione manchou a reputação dos profissionais contratados.

“O fato principal foi a questão de usar a credibilidade das pessoas. Eu estava envolvido em um projeto que chamava startups locais para participarem de um edital onde eles teriam apoio para impulsionar os negócios. A gente acabou usando a nossa credibilidade do mercado para atrair pessoas para o projeto. Depois, quando não deu certo, foi algo muito negativo ter que justificar que tudo foi por água abaixo”, comentou.

Outra contratada pela Azione comentou que chegou a ter depressão após a associação negativa de seu nome com a entrada frustrada na Fucapi.

“Eu já tinha reconhecimento nacional, tinha ganhado prêmios locais e, quando foi no começo deste ano, eu recebi a proposta de um diretor de lá. Toda reunião me expunham muito ali. A gente se expôs muito, fez mídias e eventos para divulgar os editais, atendeu muita gente nos meses que passou lá, não sabendo que aquilo não existia. Eu tinha um nome muito forte e reconhecido no meu meio e que ficou super abalado com esse processo. A gente não sabia mais como reagir. Nossa credibilidade foi posta em cheque. Se não fosse minha família, até hoje eu estava em depressão”, contou a funcionária que também não quis se identificar.

Mesmo com a dívida milionária, atualmente, a Fucapi segue suas atividades com a antiga direção, mas a reportagem teve relatos de que alguns professores do quadro atual estão sem receber salários.

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