Domingo, 26 de Maio de 2019
POLÊMICA

Bloqueio de R$ 38 milhões em verbas divide opiniões na comunidade da Ufam

Posição sobre a medida do MEC muda conforme a área de formação dos professores e alunos. Há quem apoie a medida



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Foto: Arquivo/Ac
07/05/2019 às 20:15

Após o Ministério da Educação (MEC) ter anunciado o bloqueio de R$ 38 milhões da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), professores e alunos da instituição possuem opiniões distintas sobre o tema. Segundo o reitor Sylvio Puga, a medida afeta principalmente as atividades de custeio da Ufam e ameaça a continuação de projetos de extensão e pesquisa, entre eles o Programa de Iniciação Científica (Pibic).

Conforme o coordenador do curso de Jornalismo da Ufam, João Bosco Ferreira, as ações do governo visam o desmanche da universidade pública em nível nacional. “As universidades públicas estão sendo gradativamente penalizadas e estão sofrendo com esses cortes. É a intenção do governo inviabilizar o ensino público de nível superior. Esses ataques ao ensino público já são realizados há tempos e agora ganharam força em discursos extremistas”, disse.


Para o professor João Bosco Ferreira, do curso de Jornalismo da Ufam, os cortes representam um desmonte da universidade. Foto: Pedro Sousa

Bosco comentou ainda sobre declarações recentes do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que universidades que "estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas".

“O ponto de vista dele é completamente equivocado. A universidade prima, principalmente nas áreas de ciências humanas, pensar o país, a democracia e a liberdade de expressão. Tenho pena de alguém que tenha esse tipo de pensamento como o dele. Não merece a mínima credibilidade da minha parte”, comentou o coordenador.

Para o estudante do sétimo período de Ciências Naturais, Kennedy Costa, 26, o contingenciamento no orçamento da Ufam irá afetar principalmente estudantes de baixa renda que utilizam os programas sociais da universidade. “Nos últimos anos tivemos um maior número de jovens negros e pobres entrando na universidade pública, mas que necessitam de programas sociais para poder se manter estudando. Esse contingenciamento irá atingir principalmente esses estudantes, que poderão perder esses direitos”, comentou Kennedy.

“Faço parte de programas como o Pibic e o Pibid (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência), e temo pelo pior. O encerramento desses programas de extensão e pesquisa, que são consolidados nas universidades públicas, pode acontecer devido ao processo de desmanche que o governo federal está realizando nas universidades e institutos federais”, concluiu o estudante.

Contraponto

Apesar da grande preocupação de alguns alunos e profissionais do ensino superior, principalmente na área de Humanas, o tom muda quando são ouvidos integrantes de cursos de Exatas. Com um discurso conciliatório, o vice-diretor da Faculdade de Tecnologia (FT/Ufam), João Caldas, afirma que é preciso ter calma nesse momento para analisar o que de fato será maléfico para o ensino público.

“Apesar de ficar triste com a retirada de verbas do orçamento da universidade, não podemos tomar medidas drásticas sem antes analisarmos com calma o porquê desses contingenciamentos. A princípio, os salários dos professores efetivos e dos substitutos estão assegurados, portanto não creio que ao menos por enquanto se justifiquem atitudes mais enérgicas como greves ou paralisações de longo prazo, já que quem sempre acaba penalizado é o estudante”, pontuou.

Já para o estudante do sétimo período do curso de Engenharia Mecânica, Luan de Castro, 24, o corte nas verbas do ensino superior é justificável caso os valores sejam redirecionados para o ensino fundamental. “É natural que percamos uma quantidade de investimento agora, para que esses mesmos investimentos sejam revertidos em favor do ensino básico brasileiro, principalmente para os primeiros anos do ensino fundamental. É uma perda momentânea que trará bons resultados pensando no longo prazo”, disse.

O estudante criticou ainda o processo de produção de pesquisas na universidade e defendeu uma maior fiscalização do dinheiro público investido em programas da universidade. “A gestão das bolsas e programas de extensão e pesquisa é feita de forma insatisfatória e falha. É comum que estudantes da universidade entrem nesses programas visando apenas os valores da bolsa, sem terem o objetivo de produzir ciência”, pontuou o estudante.

Manifestações

A primeira secretária da Associação dos Docentes da Ufam (Adua), Ana Cristina Martins, definiu o ato do Ministério da Educação como o maior corte que a Ufam já passou, em relação aos últimos governos. Para ela, as ações capitaneadas pelo presidente Jair Bolsonaro representam um desmonte nas universidades públicas.

“O governo federal chama de contingenciamento o que na verdade é um claro e evidente corte no orçamento do ensino público de nível superior, até porque não há nenhuma garantia de que esses valores sejam revertidos e que esse dinheiro volte para a universidade”, disse Ana Cristina.


Segundo Ana Cristina Martins, o corte de R$ 38 milhões da verba da Ufam já é o maior enfrentado pela instituição de ensino. Foto: Pedro Sousa

“Um país que não valoriza a construção da ciência está também afetando negativamente a sua soberania, já que um país que não tem autonomia na produção do conhecimento, inevitavelmente irá sofrer um impacto no seu desenvolvimento a médio e longo prazo”, complementou a secretária, ao destacar que o sindicato irá realizar reuniões durante esta semana para deliberar sobre assuntos e atividades que irão culminar em uma greve geral a ser realizada na próxima quarta-feira (15).

“Vamos fazer frente a essas ações do governo por meio de um ato que ocorrerá a nível local e nacional, no dia 15 de maio, que é a greve geral em defesa da educação pública. Não só os segmentos da universidade vão participar para fazer frente a isso, quanto integrantes do Instituto Federal e Educação do Amazonas (Ifam) e representantes da educação básica”, concluiu.

Moção de Apelo

Em pronunciamento na sessão desta terça-feira (7), na Assembleia Legislativa do Estado (ALE/AM), a deputada estadual Alessandra Campêlo (MDB) informou que está encaminhando ao Governo Federal uma moção de apelo na qual pede a revogação da medida do MEC que corta linearmente 30% dos recursos destinados às instituições federais de ensino superior no País.

“A nossa universidade dificilmente conseguirá fechar o ano se esse dinheiro bloqueado não for liberado. A gente está apresentando uma Moção de Apelo ao Governo Federal, e todos os deputados presentes assinaram, mas nós queremos também fazer um apelo à nossa bancada federal de senadores e deputados”, disse Alessandra.

A vice-presidente da casa acrescentou que vai encaminhar o expediente ao presidente do MDB no Amazonas, senador Eduardo Braga, no sentido de unir esforços políticos em Brasília em defesa da UFAM.

Em declarações nesta terça-feira (7), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, ao classificar as ações do governo como um contingenciamento, disse que a retomada do crescimento da economia brasileira, após a aprovação da nova Previdência, poderá causar o desbloqueio dessas verbas.

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Repórter de A Crítica

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