Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
EM BUSCA DO MONOPÓLIO

De aliadas a rivais: saiba o que causou a guerra entre a FDN e Comando Vermelho

Família do Norte e o Comando Vermelho dividem o controle do tráfico de drogas em Manaus e no interior do Amazonas. Racha de grupos, que já foram aliados no passado, explica os recentes massacres e ataques em diversas regiões da capital



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30/10/2019 às 19:25

A guerra entre facções rivais no Amazonas tem sido responsável por inúmeras mortes, massacres e confrontos armados nos bairros de Manaus e em cidade do interior do estado. A recente morte de 17 suspeitos de tráfico, na madrugada desta quarta-feira (30), expôs novamente a divisão da capital amazonense entre as organizações criminosas Família do Norte (FDN) e o Comando Vermelho (CV). Antes aliadas, hoje disputam o controle do tráfico de drogas. O Portal A Crítica fez um levantamento a fim de contextualizar o caso e evidenciar o cenário atual das duas facções na capital.

Nascida após a união entre os traficantes José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa” – que controlava o tráfico de drogas nos bairros da Zona Oeste -, e Gelson Carnaúba, o “G” – que dominava parte da Zona Sul de Manaus, a Família do Norte foi criada nos moldes de outras organizações criminosas que atuavam em diferentes estados do país.



Segundo a Polícia Federal (PF), a ideia da união entre os dois traficantes surgiu após eles terem passado uma temporada presos em presídios de segurança máxima, onde tiveram contato com criminosos do Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. Eles retornaram para Manaus determinados (ou orientados) a também se estruturarem como facção criminosa, fundando assim a Família do Norte.

Aliança com o CV

Após terem se estruturado com mais de 200 mil integrantes cadastrados, inclusive com estatuto próprio e sistema informatizado e com senhas, a FDN conseguiu o monopólio de uma das maiores rotas de tráfico de cocaína do mundo: a “Solimões” – trajeto entre a tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia) e a capital amazonense.

Para ampliar as suas ações para outros locais do país, a FDN firmou uma aliança, também em um presídio federal, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, com o Comando Vermelho, ganhando influência também na região Sudeste do Brasil. Segundo o relatório da Polícia Federal (PF), o acordo entre as duas facções se deu por meio de Gelson Carnaúba e “Caçula”, um dos líderes da facção carioca que, assim como o traficante amazonense, estava preso no local.

Guerra com o PCC

De acordo com a PF, a então forte ligação entre a FDN e o CV causou uma espécie de rixa com os membros do PCC, que já eram rivais dos integrantes da facção carioca. A rixa foi o primeiro motivo para o planejamento do assassinato de todos os membros do PCC que estivessem presos em Manaus. Em 2017, o evento conhecido como “Massacre do Compaj” deixou 56 mortos.

“Foi só um lado que teve mortos. A FDN massacrou os supostos integrantes do PCC e mais um ou outro desafeto que eles tinham naquele momento. Não houve uma contrapartida da outra facção”, comentou, à época, Sérgio Fontes, então secretário de Segurança Pública do Amazonas.

Os ataques acabaram enfraquecendo o braço amazonense da facção criminosa paulista. 

Guerra com o CV

O fim da união entre a Família do Norte e o Comando Vermelho começou quando, no início de 2017, um dos líderes da FDN, o traficante João Branco, após divergências com Zé Roberto, resolve criar a “FDN Pura”. Segundo informações de uma fonte que preferiu não se identificar, João Branco queria ser dono de uma só facção, mas acabou sendo forçado a se juntar ao Comando Vermelho, devido contato do grupo carioca com as rotas do tráfico de drogas da Colômbia. Por conta disso, a ideia da "FDN Pura" acabou sendo abandonada e seus membros integrados ao CV. 

À época, o Portal A Crítica teve acesso a um relatório, datado do dia 22 de maio, que detalhava o clima de tensão entre os traficantes. A esposa de João Branco, Sheila Maria Faustino Peres, era a responsável por levar as ordens do marido para seus aliados, mas Zé Roberto descobriu seu plano para separar a FDN, conforme apuração da reportagem.

O racha entre Zé Roberto e João Branco causou o segundo maior massacre da história do Amazonas, quando em maio 2019, 55 presos do sistema prisional amazonense foram executados. Os detentos estariam no meio da divisão interna que a FDN estava passando.


João Branco e Zé Roberto foram de aliados a rivais. Foto: Arquivo/AC

Divisão do controle do tráfico em Manaus

A guerra entre as duas facções divide áreas de Manaus sob domínio do tráfico de drogas. A CRÍTICA teve acesso a um mapeamento das principais localidades que são comandadas pelas organizações criminosas.

Com João Branco integrado ao CV, diversas áreas de Manaus que pertenciam à FDN Pura passaram a ter controle do Comando Vermelho, entre elas a maior parte dos bairros da Zona Leste de Manaus, com alguns locais com focos de resistência da FDN, como o Mauazinho, Gilberto Mestrinho, São José e Tancredo Neves.

Na Zona Norte, o bairro Novo Aleixo está sob controle do CV, com uma pequena área sob comando do traficante conhecido como “Caputcho”, que integra a FDN. Cidade de Deus e Nova Cidade também estão atualmente sob controle dos traficantes ligados ao Comando Vermelho, com poucos focos de resistência ainda da FDN.

Os bairros integrantes da Zona Sul possuem controle total dos integrantes da Família do Norte, com pouca resistência em uma parte do bairro Educandos.

Bairros como Alvorada, Morro da Liberdade, Santa Luzia, São Lázaro, São Jorge, Vila da Prata, Parque Dez e Colônia Oliveira Machado também são controlados pelo Comando Vermelho, assim como o Centro de Manaus, local que possui resistência no Bairro do Céu, controlado pelo traficante Marcelinho, que faz parte da FDN.

A principal atuação da FDN permanece na Zona Oeste da cidade, em especial no bairro Compensa, local onde a facção criminosa teve origem. A organização criminosa também possui braços na Carbrás, Parque São Pedro, Redenção e Bairro da Paz, locais que têm sofrido ataques de integrantes do Comando Vermelho.

A guerra também explica a disputa intensa nas invasões da Zona Norte da capital, vizinhas do Conjunto Habitacional Viver Melhor, como a comunidade Monte Horebe. O comando do tráfico de drogas do local, que era da FDN, passou recentemente a ser do Comando Vermelho.

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Repórter de A Crítica

MORTES NO CRESPO



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