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Manaus
VIOLÊNCIA

Mulher violentada por médico durante parto diz que não quer mais ter filhos

A informação foi confirmada pela irmã da vítima, que tem 16 anos, em entrevista ao Portal A Crítica. Vídeo mostrou médico batendo nas virilhas da paciente em trabalho de parto 20/02/2019 às 12:31 - Atualizado em 20/02/2019 às 18:27
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Durante entrevista, a irmã da vítima alegou que foi vítima do mesmo médico no mês de abril na maternidade (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Amanda Guimarães Manaus (AM)

A adolescente de 16 anos que foi vítima de violência obstétrica por um médico da rede estadual de saúde do Amazonas, em maio de 2018 na Maternidade Balbina Mestrinho, em Manaus, ficou traumatizada com o ocorrido e não pretende mais ter filhos. A informação foi confirmada pela irmã da vítima, durante entrevista exclusiva ao Portal A Crítica, na manhã desta quarta-feira (20).

O vídeo que mostra a adolescente sendo violentada ganhou repercussão nas redes sociais, mas foi gravado antes do parto. Nas imagens é possível ver o médico, identificado como Armando Andrade Araújo, batendo nas virilhas da paciente em trabalho de parto. Segundo a irmã da então gestante, que preferiu não se identificar por temer represálias, o médico violentou a irmã de forma física e psicológica. 

"Isso foi no mês de maio de 2018. A minha irmã estava sentindo muitas dores e começou a perder líquido. A sogra foi com ela na maternidade e quando chegaram lá fizeram a triagem e tudo mais. Os médicos falaram que a vagina dela ainda não tinha dilatado, mesmo ela estando com nove meses (de gestação). O doutor Armando fez o toque e, revoltado, bateu nas partes íntimas dela, como mostra no vídeo. Ela gritou muito e ainda foi xingada por ele", explicou.

A irmã da vítima relata que não estava no momento em que o médico cometeu a violência obstétrica. A sogra da vítima, que aparece no vídeo pedindo para que os médicos realizassem o procedimento de cesárea, acompanhou a adolescente em todos os momentos na unidade hospitalar. 

"Eu não estava na hora, mas sei que depois teve uma discussão entre a sogra da minha irmã e o médico. Ela pediu que pelo amor de Deus fizessem a cesárea, porque a minha irmã não tinha condições de fazer normal. Foi desumano o que fizeram com ela. A criança tinha virado e não estava pronta para sair. Outro médico pediu que o doutor Armando se retirasse da sala, mas mesmo assim minha irmã passou dois dias de sofrimento na Balbina Mestrinho. Agora, ela está bem com o filho", comentou a mulher.

Mesmo com a agressão do médico, a família da adolescente não tinha como comprovar a violência. No entanto, nessa terça-feira (19), a irmã encontrou o vídeo do caso nas redes sociais e decidiu denunciar o caso.

"A sogra dela não gravou, acho que foi algum funcionário ou alguém de fora que estava lá e viu o que aconteceu. Não tínhamos provas para concretizar o caso, mas agora tudo veio à tona. Agora podemos ir atrás de fazer a denúncia", afirmou a irmã da vítima, acrescentando que a família teve um choque ao encontrar o vídeo nas redes sociais.

"Uma moça colocou o vídeo na internet, parei para assistir e vi minha irmã. Na hora, liguei para a minha mãe e ela entrou em desespero. Já pensou todo mundo ficar olhando para ela, com pernas abertas, é complicado. Isso é uma agressão psicológica", lamentou. 

Não quer ter mais filhos

Após o ocorrido, segundo a irmã da vítima, a adolescente de 16 anos ficou traumatizada e não quer mais ter filhos. "Ela está revoltada com tudo isso, chorou e ficou muito traumatizada. Não quer ter mais filhos, porque é complicado demais. Ontem fui na delegacia, mas o delegado não estava, hoje vou lá com o vídeo fazer um B.O. A Susam me ligou ontem e disse que o médico já tinha sido afastado, mas vamos denunciar no Conselho Regional de Medicina", afirmou. 

Nas imagens divulgadas nas redes sociais é possível ver o médico Armando Andrade Araújo batendo com as duas mãos nas virilhas da paciente em trabalho de parto. O profissional foi preso em 2015 acusado de integrar uma quadrilha especializada em cobrar dinheiro para fazer partos, laqueadura e outros procedimentos ginecológicos em maternidades públicas de Manaus.

Também foi violentada

A irmã da adolescente que aparece no vídeo sendo violentada pelo médico Armando Andrade Araújo também afirma ter sido vítima do profissional. Ela alega que em abril do ano passado, um mês antes da irmã dar a luz, tamém foi vítima de violência obstrética por Armando Araújo.

"Quando estava grávida senti muitas dores em um dia, fui na Balbina e o doutor Armando me tratou de forma rude. Mesmo com dores, ele me mandou ir para casa descansar. No outro dia, voltei para o hospital e outra médica pediu que fizessem uma cesárea de forma urgente, pois estava com uma infecção urinária e o meu filho estava quase morto. Se dependesse dele, meu filho teria morrido", destacou a irmã, também vítima do médico.

Médico teria sido afastado

Por meio de nota, a Susam informou ontem que um processo administrativo foi aberto para apurar denúncia de negligência contra o médico, em outro caso já tramitava. A secretaria também informou que pediu o afastamento do médico Armando Araújo ao Instituto de Ginecologia e Obstetrícia do Amazonas (Igoam), empresa ao qual o profissional é cooperado., e que reiterou pedido de providências ao Conselho Regional de Medicina (CRM).

Procurado pela reportagem, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Cremam) afirmou também em nota que tomou conhecimento do fato e que abriu uma sindicância para averiguar a situação. Caso seja confirmada infração ao Código de Ética Médica, um processo é aberto, com amplo direito de defesa. A denúncia também pode ir para o Conselho Federal de Medicina.

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