Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
INDÍGENAS

Indígenas vão à ALE pedir apoio contra extinção da Secretaria de Saúde Indígena

Medida anunciada pelo governo federal exclui a Sesai e municipaliza os serviços de saúde indígena em todo o País. Só no Amazonas duas mil comunidades ficariam ameaçadas



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Foto: Jair Araújo
27/03/2019 às 10:32

Aproximadamente 400 indígenas de várias etnias e municípios do interior do Amazonas fizeram uma passeata pelas ruas de Manaus na manhã desta quarta-feira (27) e tomaram o plenário da Assembleia Legislativa do Estado (Aleam) para pedir apoio dos parlamentares diante da possível extinção da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), uma medida do governo federal para municipalizar a saúde indígena.

Os líderes indígenas denunciam os impactos que seriam causados caso a secretaria vinculada ao Ministério da Saúde seja extinta pelo governo federal. “A Sesai foi criada com o foco para dar um suporte à saúde indígena lá na base. Por exemplo, tem município que nem sabe o que é isso e muito menos sabe que existe indígena no seu entorno. A Sesai conhece as necessidades do indígena e, hoje, há equipes que são treinadas que já sabem como chegar na aldeia e já sabem como tratar o próprio índio por isso nós somos contra a municipalização da saúde”, disse Jonas Mura, representante indígena no município de Silves.

De acordo com as lideranças, a extinção da Sesai ameaçaria a saúde mais de duas mil comunidades indígenas só no Amazonas. “A gente pede que nossa saúde seja garantida por que na nossa concepção, os ministros não conhecem o Brasil e não conhecem a nossa realidade de nós povos originários. Sem a Sesai, nós estamos condenados a morrer”, afirmou a vice-presidente da Federação do Povo Indígena Kokama em Tabatinga, Milena Kokamiria.


Foto: Jair Araújo

Antes de ocuparem o plenário da ALE, os indígenas fizeram uma passeata por ruas de Manaus, caminhando da sede do Ministério da Saúde, na avenida Djalma Batista, até a avenida Mario Ypiranga onde fica a Assembleia Legislativa. Com faixas e cartazes, eles pediam a permanência da Sesai para cuidar da saúde indígena no País.

Após serem ouvidos pelos parlamentares que acompanharam a sessão, os líderes indígenas retornaram ao Núcleo Estadual do Ministério da Saúde na avenida Djalma Batista. As lideranças esperam apoio massivo frente à problemática.

“Os deputados se disponibilizaram a nos ajudar. Tenho certeza que eles sabem a nossa realidade porque os ministros estão por fora das coisas. Enquanto eles sedem carros e ambulâncias, nós estamos atrás de motor rabeta para atender os pacientes lá nas cabeceiras dos rios e isso é muito difícil para nós. Por isso estamos aqui reivindicando os nossos direitos”, afirmou o líder indígena de Fonte Boa, no médio Solimões, Raimundo Maricaua.

Bancada federal

O deputado estadual Dermilson Chagas (PP), presidente da Comissão Direitos Humanos da ALE, afirmou que os deputados vão se unir e criar um grupo de trabalho, formado também por Alessandra Campêlo (MDB) e Wilker Barreto (PHS), contra a proposta do governo federal. Uma das ações é contatar a bancada federal do Amazonas e sensibilizá-los a fim de os parlamentares em Brasília pressionarem o Planalto a não municipalizar a saúde indígena.

“São eles (bancada federal) que nós vamos procurar para discutir a questão da Sesai, o que pode ser feito, qual posicionamento, de que forma podemos ter uma discussão para que os povos indígenas não fiquem prejudicados”, disse Chagas. “Vamos conversar com a bancada de deputados federais, fazer uma reunião com eles para pontuar cada problema que vá prejudicar a população indígena”.

Dermilson pontuou ainda que os povos indígenas devem ser respeitados pela Presidência da República, autora da proposta de extinguir a Sesai. “Temos no Amazonas regiões onde a maioria da população é indígena, o resto é Exército e alguns brancos. Então não podemos deixá-los de lado. O presidente Bolsonaro já falou que índio não tem direito a terra, que a saúde indígena tem que ser municipalizada, que tem que se discutir a exploração mineral em terras indígenas. Temos que conversar com ele (Jair Bolsonaro). Ele tem que respeitar esse povo, eles têm direitos e não podem ficar desamparados nem pelo Estado nem pela União”, finalizou.

Interdição da Djalma

Ontem, os indígenas fizeram outra manifestação e interditaram o trecho da avenida Djalma Batista onde fica a sede do Ministério da Saúde. Eles entoaram cantos tradicionais e gritos de ordem. Todos os protestos fazem parte da mobilização nacional contra a extinção da Sesai.

Ministério da Saúde

No último dia 20, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou mudanças na pasta, dentre elas, a extinção da Sesai. Entretanto, por meio de nota, o órgão informou que mudanças nas ações de saúde aos povos indígenas ainda estão sendo discutidas e que, por enquanto, não existe medida provisória do governo federal que municipaliza os serviços de saúde indígena ou que modifica a política indigenista.

*Colaborou a repórter Wal Lima


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