ENTREVISTA

Ameaçado, presidente do Garantido fala sobre dívidas, problemas com itens e avalia erros da gestão

Antônio Andrade disse que alegorias foram erro de planejamento, admite problemas de relações internos e diz que Sebastião Júnior recebeu mais que o valor contratual

Dante Graça e Isabella Pina
dante@acritica.com
07/07/2022 às 16:10.
Atualizado em 07/07/2022 às 16:26

Antônio Andrade assumiu o Garantido em 2021 (Foto: Arlesson Sicsú)

Desde o final do Festival de Parintins, há mais de dez dias, muito fogo cruzado, sérias acusações e exposição de bastidores emergem da Baixa do São José. No centro de tudo isso, o denominador comum: o presidente do Garantido, Antônio Andrade. Em entrevista exclusiva, ele fala sobre a movimentação de sócios para a tentativa de destituí-lo do cargo, acusações de dívidas com trabalhadores e polêmicas recentes com itens. 

Um dos assuntos mais comentados na semana foi o desabafo nas redes sociais do levantador Sebastião Jr. Além de chamar o presidente de mentiroso e questionar diversas falas, o item - que deixou o cargo na última noite do festival - questiona o pagamento dos funcionários, de outros itens e alega ter gasto R$ 25 mil do próprio bolso, dando a entender que não havia recebido a totalidade dos pagamentos. Antônio Andrade rebate as acusações e afirma que pagou um valor além a Sabá. 

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“Achei infeliz. Ele mesmo reconhece isso, tanto que apaga os stories dele. Ele botou gasolina na fogueira e, uma hora depois, não estava mais lá. […] Ele foi todo pago. Ele não pode se queixar que gastou dinheiro do próprio bolso, que não foi pago, porque pagamos mais do que tinha no contrato. R$ 9 mil a mais. Estamos trabalhando duro agora para pagar o resto do pessoal. Ainda faltam alguns pagamentos a serem feitos para que volte a normalidade no boi”, afirma, abordando em seguida a dívida geral com funcionários.

Amargando a recente derrota do festival, em meio aos problemas financeiros e com uma ruptura e tomada que começa pela Direção Geral de Espetáculo e se estende por todos os outros cargos dentro do Boi - como assegura Andrade - se vê no meio de uma grande articulação para que seja destituído da sua posição como presidente do Garantido. Sócios, inclusive, estão recolhendo assinaturas para uma representação que pretende tirar Antonio e sua vice, Ida Silva, do cargo. Entre os nomes envolvidos neste processo, estão o advogado e compositor do Garantido Marco Aurélio Choy, a empresária Ana Paula Perrone e o ex-amo e compositor do bumbá Gaspar Medeiros.

Sebastião Júnior disparou contra o presidente e disse que gastou R$ 25 mil do próprio bolso (Foto: Junio Matos)

“Esse jogo é político. Eu não dei um golpe para chegar aqui e ser presidente do Garantido. Eu não fiz um movimento revolucionário e tomei o poder das armas. Eu sou presidente pelo voto da maioria dos sócios numa eleição. E vou trabalhar normalmente como eleito para dirigir o boi. Hoje, já sinto a Nação mais calma. Não está tranquilo. Estou fazendo os movimentos que considero corretos, no momento, para normalizar. A primeira decisão que tomei foi pedir todos os cargos dentro do boi, não foi só na DGE. A DGE já tinha sido extinta. Os cargos de diretoria, assessoria, coordenadorias. Eu pedi todos esses cargos para que eu possa conversar com outras forças e montar uma nova administração capaz de ter mais tranquilidade de administrar o boi. Tomar as rédeas para ter mais paz”, comentou.

Neste domingo, o Garantido faz Assembleia Extraordinária para prestação de Contas de 2021 - convocada pelo Conselho Fiscal e aberta para todos os sócios. Sem medo, Andrade pontua que a sessão será usada para tratar apenas sobre a pauta: “Nenhum outro assunto vai poder ser apreciado. Esses grupos que tão tentando transformar ela numa assembleia de destituição precisam ler o estatuto para chegar lá e não tentar fazer besteira, porque não tem espaço para outra discussão - que não a prestação de contas”.

Finanças e impacto na Arena

Hoje o Garantido encara, mais que a midiática crise de bastidores, a crise financeira e busca saídas para quitar o pagamento de seus funcionários. O presidente calcula que entre cerca de 15% a 20% dos trabalhadores e fornecedores ainda não foram pagos. Ele credita os atrasos a um recurso de R$ 1,5 milhão bloqueado na Justiça do Trabalho e ao recebimento de patrocínios. 

“Teve atraso de repasses. Alguns patrocinadores ainda faltam pagar parcelas. Ainda temos R$ 1,5 milhão bloqueado na Justiça do Trabalho. Isso prejudicou muito o Boi na arena. Se tivéssemos esse dinheiro, não tinha nenhum problema. Todos os trabalhadores estavam pagos, estavam todos fornecedores pagos, e a gente estava sem problema de pagamento. O bloqueio foi o problema maior que tivemos. E alguns patrocinadores que pagam depois - isso é comum acontecer”. 

Alegorias do Garantido foram alvos de críticas e decisivas para a derrota (Foto: Gilson Mello/ Freelancer)

É o mesmo tão mencionado atraso de repasses que justifica, na visão do presidente, o Boi de Arena que o Garantido apresentou nas três noites de festival. Em retrospectiva, Antônio Andrade avalia que o boi pecou nas alegorias - que considera dos problemas mais graves - por falta de uma tecnologia que não pôde contar. O assunto sempre volta ao atraso dos repasse e às questões financeiras. 

“Tivemos problema com as alegoria porque a gente estava preparando elas para uma tecnologia que a gente ia usar e, no final, a gente não teve essa tecnologia. E aí vêm muitas causas… Atraso de repasses para o boi… Isso foi uma das principais. Esse atraso foi por conta da situação administrativas dos Bois, porque essas empresas grandes têm regras para seguir. Não conseguimos trazer essa tecnologia, e isso impactou muito nossas alegorias. Precisávamos dessa tecnologia. Com isso, tivemos problema grave com notas de alegorias e itens ligados - Lendas e Rituais. Prejuízo no bloco C”, discorre.

DGE, Danny Tapajós e outros itens

Foi no final da tarde do domingo, último dia de festival, que o primeiro item - o levantador Sebastião Jr. - anunciou sua saída do Bumbá Vermelho e Branco. Entre aquela madrugada e a manhã seguinte de apuração, David Assayag e Edilson Santa seguiriam seus passos. A Direção Geral de Espetáculo (DGE) foi prontamente extinta e rusgas foram deixadas pelo caminho das movimentações. Sem enxergar saída mais fácil, Andrade comenta a decisão: “Eu tinha um problema de relacionamento interno lá, e eu só tinha uma forma de resolver isso: pedir o cargo de todo mundo”, disse ele, sem detalhar que problemas eram esses.

"Vou voltar com o grupo de Comissão de Artes. Ainda estou conversando com as pessoas que vão fazer parte. Alguns da DGE voltarão, mas vou fazer um grupo menor. Ainda estou construindo isso". Questionado se alguns dos principais nomes da DGE - Mencius Mello, Rubens Alves, Ito Teixeira, Adan Rene e Allan Rodrigues - estariam entre os possíveis retornos, Andrade disse que só falaria depois que conversasse com cada um dos membros. 

Daniela Tapajós deixou o Garantido reclamando de machismo e terrorismo psicológico (Foto: Junio Matos)

A mais recente saída, contornada por sérias acusações de terrorismo psicológico e machismo, foi a da porta-estandarte Daniela Tapajós. O dirigente disse não ter conhecimento sobre as alegações e comentou o caso. 

“Havia o clamor de muita gente para trocar ela, porque achavam que não estava no mesmo nível que os outros itens femininos. Houve essa discussão dentro da DGE. Sempre que essa discussão surgia, eu defendia que ela tinha que entrar na arena, até mesmo para se despedir. Eu só sinto muito pela forma que ela saiu, e pelas coisas que falou. Para mim, quando a gente vai para a arena e fala em defesa da mulher, para mim é pra valer. O Garantido não pode tratar mal suas mulheres e eu jamais permitiria isso. Eu procuro tratar os itens como se fossem meus filhos”.

Na mesma pauta, chega a ventilar problemas com a Rainha do Folclore Edilene Tavares. Andrade nega e afirma que houve, apenas, discussões internas na DGE sobre uma substituição de Edilene na segunda noite do festival “por questões temáticas”. Naquela noite, o Garantido trabalhou a negritude na Amazônia e por isso discutiu-se trocar Edilene - que é uma afroindígena, ou seja, uma mulher com raízes  negras e indígenas - por uma substituta negra. A ideia não vingou, como revelou o presidente;

Israel Paulain, apresentador há mais de 20 anos dentro do Garantido, diante da crise na Baixa do São José, se posicionou como o nome que “iria arrumar o Garantido”. O fez, inclusive, em discurso no curral do boi, liderando movimento contra a presidência de Andrade. O apresentador se colocou, antes mesmo do fim do festival, como pré-candidato a Deputado Federal. O presidente, ao mencionar a posição de Paulain no Boi, referencia o período político.

Israel Paulain tem comandado uma resistência interna pelo que chama de reconstrução do Garantido (Foto: Arlesson Sicsú)

“Depois do festival, não consegui falar com o Israel ainda. É um ícone do boi hoje, um representante queridíssimo pela galera, historicamente um homem vitorioso. Uma pessoa que tenho muito carinho. Mas resolvi não conversar, até porque ele é candidato e, nessa altura, ele deve estar pensando na candidatura dele. Certas coisas a gente releva. Então resolvi não ter essa conversa. Vou esperar passar as eleições para conversar com ele. Ele, realmente, se quiser, pode ajudar”, aponta.

Arrependimentos e futuro

Por fim, num retrospecto geral, do alto de seu cargo e na expectativa de dias mais tranquilos pela Baixa, Antônio Andrade faz um balanço de erros e acertos dentro do Festival de 2022 e - por consequência - sua gestão. Volta a mencionar as alegorias, toca nas “complicadas” relações humanas, e promete que, em sua gestão - no futuro - centralizará mais as coisas.

Presidente afirmou que tentou descentralizar as ações do bumbá, sem sucesso (Foto: Arlesson Sicsú)

 “O que gostaria de fazer diferente seria em relação às alegorias. Quando você olha de trás pra frente, você detecta erros que poderiam ser corrigidos. A questão das alegorias foi um erro de planejamento. Na questão das relações humanas, infelizmente, a gente acerta e erra, é muito complicado prever. Muita gente gostaria que eu fosse o Antônio Andrade de 2001 e 2002, que fazia e decidia tudo sozinho, que cortava cabeças. Eu achei que um boi mais conversado, mais bem pensado, mais discutido e eu tendo mais paciência com as coisas seria melhor. Não acho que essa tática foi um erro. Mas, daqui pra frente, vou centralizar muito mais as coisas. São aprendizados”, finaliza. 

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