Candidato avulso para o Senado, o ex-vereador Chico Preto tenta, na Justiça Eleitoral, garantir sua participação na eleição. O Avante, partido dele, faz parte da coligação que lançou o Coronel Menezes
TRE-AM julga caso de Chico Preto nesta terça-feira (Arlesson Sicsú/A Crítica)
Em todas as eleições, é comum que a formação de alianças políticas resulte no fortalecimento de algumas candidaturas e no enfraquecimento de outras. No pleito deste ano, o palanque formado pelo governador Wilson Lima (União) e o prefeito David Almeida (Avante) para o presidente Jair Bolsonaro (PL) deixou um candidato para trás: Chico Preto (Avante), que busca vaga no Senado.
O ex-vereador se registrou como candidato avulso, mas o Ministério Público Eleitoral (MPE) impugnou a candidatura. Agora, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) deve decidir o caso nesta terça-feira (30).
Para Chico Preto, que é advogado, há elementos suficientes que lhe permitem defender a própria candidatura, mesmo que não tenha sido registrada em convenção, como manda a legislação. Ele também critica o candidato ao senado Coronel Menezes (PL) apoiado pela aliança de partidos no entorno de Wilson Lima. Para ele, Menezes trabalhou para impedir a sua candidatura. A seguir a entrevista.
O senhor já está em plena campanha eleitoral, inclusive, divulgando seu número de urna, mas o Ministério Público Eleitoral (MPE) apresentou um parecer pedindo a impugnação da sua candidatura. Pra gente começar, o que aconteceu?
O Ministério Público está constatando o que nós já havíamos divulgado para a população. Que pelo fato de o partido não poder ter colocado o meu nome por conta de uma conjuntura política, decidi correr por fora e pedir um registro de candidatura avulsa. A decisão do Ministério Público não me assusta. Ele entende que você só pode ser candidato se estiver lá [na ata votada pelo partido na convenção]. Mas nós temos argumentos, eu sou advogado e os advogados são experts em mudar opiniões e tenho a convicção que no caso que eu vivo a candidatura avulsa é possível.
Como vai ser essa defesa num recurso caso a sua candidatura seja impugnada. Quais os argumentos?
Existem vários argumentos que estamos separando para mostrar ao juiz que vai julgar que essa condição de candidatura avulsa é possível, tem base jurídica. Confio na Justiça Eleitoral e no senso de Justiça que os membros do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas terão no meu episódio.
Mesmo que houvesse uma conjuntura política que não lhe considerasse como candidato ao Senado pelo partido, o senhor chegou a pedir que o Avante lhe registrasse? O que o senhor ouviu do partido como resposta?
Nós sabemos que houve uma aliança política e que meu partido só podia indicar o vice [na chapa à reeleição do governador Wilson Lima, do União Brasil]. Então, decisões tiveram que ser tomadas, mas não me jogaram na água.
E por que o senhor não foi à convenção? Foi por conta dessa costura? O senhor estava onde no dia?
No dia da convenção eu estava em casa. O prefeito David foi muito correto comigo, me chamou, disse o que estava acontecendo e eu entendi. Eu tinha que entender e tomar outra decisão. Não sou daquele que vai fazer ceninha, chilique. Eu absorvi a informação e no dia seguinte consultando a minha família, esposa, mãe, filhos, todos disseram 'vamos pra cima' e aqui estamos nós mostrando para a população, e vai chegar o momento que vamos mostrar para a Justiça. Detalhe, eu tenho todas as minhas certidões, ou seja, ficha limpa. E é injusto você impedir que alguém sem condenação alguma tenha o direito de ser votado.
O senhor já acompanha o prefeito David Almeida há meses, estão ali lado a lado mesmo. Além do seu ato de filiação no partido dele, o senhor esteve em reunião do Fórum Permanente de Articulação da Zona Franca de Manaus (FOPAZFM), da prefeitura, e até acompanhou o prefeito na Marcha pra Jesus, quando o Bolsonaro veio a Manaus, só pra citar alguns exemplos. Quando o senhor começou a perceber que essa articulação política estava lhe deixando de lado?
O prefeito David, de forma muito honesta, sempre me deixou a par de todas as pressões desse processo. E elas são costuradas pelo [candidato ao Senado Coronel Menezes]. Ele é o autor e disse isso nos últimos meses, que tinha um acordo, e que se não fosse cumprido, enfim, ele, como boquirroto que é, colocou isso de forma clara. E nessas ameaças, ele acabou me fazendo uma vítima, mas não pelas mãos do prefeito David, o prefeito segue sendo muito correto na relação que tem comigo. E como te falei, ao deixar a brecha na ata do partido, ele me dá uma oportunidade para seguir. E tenho convicção que quando a Justiça confirmar a minha candidatura, não tenho dúvida que o prefeito irá mergulhar de cabeça nessa campanha.
O senhor já foi aliado dos senadores Omar Aziz e Eduardo Braga. Hoje, o senhor critica ambos e está do lado contrário, no grupo político do prefeito David Almeida, que é aliado do governador Wilson Lima. Como aconteceu essa sua mudança de um grupo para o outro?
Foi natural. A partir do momento que eu me afasto deles, passo a caminhar como um lobo solitário por pelo menos dez anos, e naturalmente, numa convergência de ideias, em 2018 a gente caminha junto, eu e o David, fui vice dele, e criamos ali um vínculo. Em 2020, ele disputa a prefeitura e eu também, mas não tivemos atrito, tivemos maturidade. E entendemos que somos uma geração que está aí, nascendo. O David tem 53 anos e eu também, então é uma geração que pode contribuir muito para a prefeitura, para o governo. E a posição que me sinto pronto, que pleiteio, é o Senado.
Como eu disse, o senhor já foi aliado de Omar Aziz e Eduardo Braga, que são próximos ao ex-presidente Lula (PT) e têm mais facilidade em caminhar ali pela centro-esquerda. O senhor sente que o seu próprio espectro político mudou nesses últimos anos, depois de deixar o grupo deles?
Os meus valores nunca mudaram. No Brasil, até então, nós não tínhamos partidos de direita. O espectro político, ideológico da direita, é muito recente. Até o Bolsonaro foi de partidos que estavam mais à esquerda. Mas os meus valores são os mesmos, sou um cara que sempre se posicionou a favor da família, sou contra o aborto, tenho uma visão conservadora de alguns avanços que a sociedade quer dar sem a devida discussão, e tenho uma visão de iniciativa privada na economia. Quem gera emprego nesse país não é o governo ou a prefeitura, é o empresário. Então, sou assim mesmo que tenha me filiado um dia a um partido mais à esquerda por uma questão de necessidade. A política às vezes provoca essas contradições.
Aproveitando que o senhor citou o presidente. Na disputa presidencial, o então pré-candidato pelo seu partido, André Janones, retirou a candidatura para apoiar o Lula. Ainda assim, o senhor tem liberdade para apoiar quem quiser? Vai ser o Bolsonaro ou outro?
É o Bolsonaro. Com críticas, mas é o Bolsonaro. Acho que as decisões em relação ao Amazonas não foram acertadas.
O senhor se refere à Zona Franca?
Exatamente.
Não tem receio de apoiar ele e acabar perdendo eleitores do Amazonas por causa dessa crise com a Zona Franca? A gente já começou o período de campanha e vi que o senhor não postou foto com ele, nem que fosse montagem para a disputa eleitoral.
Eu nem tenho foto com ele e prefiro não fazer montagens. Meu voto segue sendo do Bolsonaro, com críticas. Eu sou candidato pela minha história, não pela história do Bolsonaro. Quem precisa disso é o Menezes. Nasci nu, sem mandato, na humildade e na ousadia, abaixo de Deus o povo me elegeu vereador quatro vezes, [e também] deputado. É pela minha história, pelos meus 22 anos de vida pública, ficha limpa.
Sei que hoje o senhor mira o Senado e que o cargo é de oito anos, ou seja, vai um longo tempo aí. Mas quais são seus planos futuros? Pode disputar o governo do Amazonas, por exemplo?
Eu me vejo no Senado contribuindo incisivamente para a reeleição do prefeito David [em 2024], guardando a vinda dele para [uma candidatura ao] governo [em 2026], ele tem essa perspectiva, e quero colaborar nesse momento. Depois da chegada dele ao governo, o futuro a Deus pertence. Se eu fizer um bom mandato como senador, por que não concorrer à prefeitura? Se posso dar uma contribuição para a população nisso, fazer esse bate bola, Amazonas [com David no governo] e Manaus.
Caso sua candidatura seja aprovada e o senhor vença, quais propostas pretende defender no Senado?
Logística, a BR-319, a conectividade, o que chamamos de cultura digital. Precisamos diminuir as distâncias com o mundo digital. A economia do Estado, a defesa do meio ambiente, mas a defesa racional. Meio ambiente e desenvolvimento podem coexistir, eles não são excludentes. O futuro do povo do Amazonas é bolsa isso, bolsa aquilo? É atividade econômica, para as pessoas terem renda, trabalho, e isso é possível. Por exemplo, temos aqui a questão da mineração, da silvinita. A minha posição será de agir politicamente assim como quando eu estava na Assembleia e convenci os deputados que os pequenos produtores poderiam vender para o Estado. Foi assim que nasceu o programa de regionalização da merenda escolar, que hoje coloca R$ 45 milhões nos bolsos de pequenos produtores.
Chico tira foto com eleitor após a entrevista (Arlesson Sicsú/A Crítica)
Político durante entrevista na semana passada (Arlesson Sicsú/A Crítica)