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Amazônia
Serras Guerreiras de Tapuruquara

Projeto turístico em Terras Indígenas pioneiro estimula o resgate cultural dos povos

Atividade de base comunitária tem despertado os indígenas para a valorização de suas tradições, massacradas pela colonização 03/11/2018 às 00:22 - Atualizado em 10/11/2018 às 10:05
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Seo Simplício conta que o pai não deixou ele aprender a língua nativa com medo de que ele não se integrasse ao mundo ‘dos brancos’. Foto: Yan Boechat
Luciano Falbo luciano.falbo@acritica.com

A colonização distanciou muito os povos indígenas do Médio Rio Negro de sua própria cultura. As comunidades, cujo modo de vida é muito parecido ao de caboclos ribeirinhos de outras partes da Amazônia, são multiétnicas. Nelas vivem, entre outros, Tukanos, Dessanos, Baniwas, Tarianos e Barés, que são maioria.

Seo Simplício Braga carrega no sobrenome a marca da ocupação portuguesa. Aos 69 anos, o morador mais antigo da comunidade de Aruti convive com a tristeza de não ter aprendido a língua do seu povo, o Baré, praticamente extinto. “Meu pai dizia: se eu for falar Baré com vocês, como vocês vão aprender a falar a língua de branco, que só fala a língua deles?”, relatou.

“Ele dizia: se vocês não aprenderem o português, na escola não vão aprender direito as coisas, vão se atrapalhar em tudo”, completou Simplício, que, apesar da perda da língua nativa, é um entusiasta das tradições Baré. Entusiasmo que ficou mais forte depois que ele passou três anos trabalhando com o lendário padre alemão José Schneider no rio Cauboris, ao norte de Santa Isabel, junto aos Yanomami, em uma missão Salesiana.

“A língua deles é mais difícil de falar”, relembra ele, que é fluente em nheengatu (língua geral de raiz Tupi) e que começou a trabalhar para a missão aos 17 anos. “Eles (os Yanomami) são amigáveis. Lá eles não perderam tanto a cultura como nós, índios aqui do beiradão do rio Negro”, ressaltou o anfitrião.

Mas, com a implantação do projeto de turismo de base comunitária “Serras Guerreiras de Tapuruquara” nos últimos tempos, o ancião tem visto o interesse dos mais jovens pelas tradições crescer. Simplício Braga então decidiu reunir vários casais mais novos e começou a ensinar as duas danças mais conhecidas da etnia, o Mauaka e o Abacuri, o que tem se transformado em uma atração aos visitantes nas expedições.

 Crianças com os turistas após a dança Maniaka Murasi, a dança da mandioca, na comunidade Cartucho. Foto: Yan Boechat

 Dança Mauaka, na comunidade Aruti. Foto: Arnaldo Franken

Filha de seo Simplício, a professora Clarice Braga explicou que todos sabiam que as danças existiam. “Mas com a chegada da tecnologia, os mais jovens não quiseram saber muito disso. Aí, quando fizemos esse projeto de turismo, isso ajudou a resgatar”. A intenção, disse ela, não é só voltar a fazer a dança “para turista ver”, mas também nos casos de grandes colheitas, nascimentos e casamentos, como no passado.

 Esteiras tupés, uma especialidade da comunidade Aruti. Foto: Yan Boechat

Nesse sentido, a antropóloga Camila Barra, do ISA, avalia que o turismo de base comunitária tem impacto postivo. “A cultura está ali. Um dos desafios é dos jovens aprenderem, sentirem orgulho e a diretoria da associação (Acir) pensou nisso ao propor o turismo de base comunitária, de que as comunidades tivessem uma atividade que promovesse não só a geração de renda, mas sobretudo essa valorização da cultura”, observou.

Para a coordenadora da Garupa, Paula Arantes, esse tipo de turismo é capaz de “encantar os dois lados”, ao mostrar para os urbanos visitantes o quanto é possível viver integrado à natureza, com qualidade de vida e para comunitários visitados, que muitas vezes têm no imaginário que a vida na cidade é melhor, o quanto os turistas se maravilham com a vida em meio à floresta.

“Isso melhora a autoestima deles, faz eles valorizarem coisas que nunca tinham prestado a atenção, faz com que tenham mais orgulho e vontade de estar lá, pois, além das belezas e apesar das dificuldades, é um lugar onde não passam fome e nem violência”, disse.

Retorno às raízes

Morador da comunidade São João 2 há 25 anos, seo João Vieira Brasão, 57, diz que a maioria dos ribeirinhos da região tinha vergonha de dizer que era indígena por causa do preconceito, o que só mudou com as demarcações a partir dos anos 1990. “Ser índio é sinônimo de atraso para muitos ainda”, disse ele, ao atribuir parte da responsabilidade pela perda cultural ao encantamento com o mundo fora dali.

“Muito do que tínhamos acabou. Muitos não aprenderam nem fazer tipiti. Só querem pescar de malhadeira (rede), não querem flechar, aí pesca mais do que precisa. Pra quê? Se hoje já tem, amanhã vai pescar de novo”, disse ele, que, após as tratativas iniciais para a implantação do projeto de turismo de base comunitária na região, incentivou a volta da prática de fazer cerâmica em sua comunidade.

 Produção cerâmica, especialidade da comunidade São João 2. Foto: Luciano Falbo

“Essa experiência está sendo muito boa. Eu não tinha o conceito deste tipo de turismo e fui atrás. Antes, nós tivemos experiência de pesca esportiva, mas o pessoal não respeitava as comunidades, ia pescar onde não devia e então a gente não quis mais. Agora, nesse modelo é diferente”.

Valorização

Morador da comunidade Cartucho, a maior da região, o professor de matemática Alessandro dos Santos Cruz, 28, da etnia Baré, disse que é prova viva do massacre cultural. Vice-presidente da Acir, ele é um dos entusiastas do trabalho de valorização da cultura.

“Ainda pequeno fui para a cidade (Santa Isabel) e acabou que não tive contato com a minha cultura. Eu sabia que era índio, mas só vim saber que eu era Baré quando eu vim para Cartucho, aqui a cultura era um pouco mais forte, e na cidade, no tempo que eu estudei lá, era mesmo discriminação. Eles diziam que você não tinha o direito de estar lá e ninguém queria ser índio lá. E aqui não. Quando vi o movimento indígena logo me identifiquei: é isso que eu quero. Entrei na associação para poder ajudar a fortalecer isso”, contou ele.

 O professor Alessandro Cruz, vice-presidente da Acir. Foto: Luciano Falbo

A valorização da cultura é uma das pautas trabalhadas em sala de aula, ressaltou o professor. Não é um trabalho fácil. “Os pais já não tinham essa preocupação de passar isso para os filhos”, observou.

O projeto “Serras Guerreiras”, resumiu Alessandro: “Gera renda, visibilidade, espaço produtivo e protegido e a volta da cultura”. “Independentemente do dinheiro, que ajuda bastante, a gente ganha muito mais com esse resgate; os velhos relembram as histórias, as comunidades ficam mais organizadas, limpas, bem cuidadas. A gente é muito mais beneficiado indiretamente”, relatou.  

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Esta reportagem faz parte de uma série especial publicada originalmente na edição impressa do jornal A Crítica do dia 24 de junho.

Leia das demais matérias da série:

1 - Projeto de turismo comunitário mostra a Amazônia sob um outro aspecto: https://www.acritica.com/channels/governo/news/projeto-de-turismo-comunitario-mostra-a-amazonia-sobre-um-outro-aspecto

 

2 - Projeto turístico em Terras Indígenas pioneiro estimula o resgate cultural dos povos: https://www.acritica.com/channels/governo/news/projeto-turistico-em-terras-indigenas-pioneiro-estimula-o-resgate-cultural-dos-povos

 

3 - Turismo comunitário no Rio Negro é uma iniciativa dos próprios ribeirinhos: https://www.acritica.com/channels/governo/news/turismo-comunitario-no-rio-negro-e-uma-iniciativa-dos-proprios-ribeirinhos

 

4 - Expedição a comunidades do Rio Negro é uma experiência humana profunda: https://www.acritica.com/channels/governo/news/expedicao-a-comunidades-do-rio-negro-e-uma-experiencia-humana-profunda

 

5 - Seleção para participar das viagens do projeto de turismo comunitário é criteriosa: https://www.acritica.com/channels/governo/news/selecao-para-participar-das-viagens-do-projeto-de-turismo-comunitario-e-criteriosa

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