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Manaus
HISTÓRIA

Grupo vai fazer visita guiada ao Cemitério São João Batista neste domingo (4)

Passeio vai explorar a beleza arquitetônica do local e detalhar histórias de personalidades enterradas ali, como os 'santos populares' 31/10/2018 às 02:17 - Atualizado em 31/10/2018 às 11:51
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Conjunto arquitetônico do cemitério é de encher os olhos. Foto: Junio Matos/freelancer
Priscila Rosas Manaus (AM)

Já pensou em ir ao cemitério dar uma passeada? Além de um lugar para visitar as sepulturas dos entes queridos em datas como o Dia de Finados, comemorado na próxima sexta-feira (2), os cemitérios guardam muitas riquezas históricas e arquitetônicas que rendem um bom programa cultural. 

Com o objetivo de explorar mais essas facetas pouco conhecidas, o estudante de História Fábio Augusto de Carvalho e o pesquisador Ed Lincon Barros promovem, no próximo domingo, dia 4, um passeio guiado no Cemitério São João Batista, localizado no boulevard Álvaro Maia, no bairro Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul, às 9h da manhã. Os dois são colaboradores da página Manaus de Antigamente.

O cemitério tem peso na história manauara por ter personalidades enterradas no local, uma arquitetura que marca diferentes épocas, alguns túmulos mais antigos que pertenciam ao cemitério São José, que ficava no Centro e foi desativado, e também possui os “santos populares”. Mas, apesar do peso histórico, o local tem algumas sepulturas e jazigos deteriorados pelo tempo, até mesmo o de políticos importantes para a história. “Acreditamos que só ocupando esses espaços, eles serão revitalizados”, diz Fábio. O São João Batista é considerado um museu a céu aberto.

Uma das curiosidades mais marcantes do cemitério que tem 128 anos de existência são os chamados “santos populares”, pessoas comuns sem nenhum vínculo com a Igreja Católica que acabaram tendo alguns milagres atribuídos a elas.  De acordo com Fábio, são quatro enterrados no local: Etelvina de Alencar, Teresa Cristina, Shalon Emanuel Muyal e Delmo Pereira.

A Santa Etelvina talvez seja a mais famosa. Sua morte, por motivo passional em 1901, gerou uma grande comoção na sociedade à época. Em 30 de agosto de 1901, a prefeitura lhe dedicou uma sepultura perpétua com um jazigo construído pela população.   No mausoléu de Santa Etelvina, morta a mais de 100 anos, muitas flores sempre. Foto: Junio Matos/freelancer

O atual mausoléu foi construído em 1964. No local, os milagres atribuídos a ela são diversos. As “graças” que as pessoas deixam no local variam entre cadernos, flores, tranças, moldes de pés curados e etc. É um dos mais visitados em Dia de Finados.

 Trança deixada para Santa Etelvina. Foto: Junio Matos/freelancer

Uma das esculturas mais famosas do local é a de Ária Ramos. A menina de 18 anos morreu em 1915, vítima de uma bala durante uma apresentação no Ideal Clube. A morte da artista, até então anônima, gerou comoção na cidade. A escultura é uma homenagem da elite à menina. São duas as histórias apresentadas: de que ela teria sido vitima de um crime passional, hipótese mais provável, ou de que ela teria sido vítima de uma bala perdida.

 Estátua de Ária Ramos. Foto: Junio Matos/freelancer

Os outros três são menos conhecidos da população como “santos". Teresa Cristina é uma das mais novas. Morreu em 1971, aos sete anos, vítima de um acidente aéreo. Em seu mausoléu, as pessoas costumam deixar copos de guaraná, bolos e objetos infantis como forma de agradecer a graça dada pela santa. Eles também escrevem nos vidros os agradecimentos.

Delmo Pereira morreu em 4 de abril de 1952. Depois de uma série de crimes cometidos por estudantes, ele foi assassinado por 27 choferes (como se chamavam os taxistas da época). O caso Delmo gerou uma revolta populacional. Em seu túmulo encontram-se as inscrições “Estudante Mártir”. Considerado padroeiro dos estudantes, as pessoas costumam deixar cadernos em homenagem a ele pedindo sucesso na vida acadêmica.

Outro santo talvez seja o mais curioso. É o rabino Shalon Emanuel Muyal, que veio a Manaus em 1908 a fim de ajudar no desenvolvimento da comunidade na capital. Faleceu em 1910 acometido de uma doença tropical. O primeiro milagre atribuído ao “Santo Judaico” foi de uma senhora que o ajudou em seus últimos dias de vida. A senhora garantia que tinha curado outro enfermo graças ao rabino. A notícia correu dentro da comunidade. Seu túmulo possui placas de católicos agradecendo as graças alcançadas e as pedras da comunidade judaica também agradecendo os milagres.  

Outras histórias

Além dos santos populares, outras histórias estão presentes no local. Como o do Dr. Aprigio Martins de Menezes, primeiro a ser enterrado no cemitério. Ele foi o político responsável pelo projeto do cemitério e o primeiro a ser enterrado lá.

 Idealizador do cemitério foi o primeiro a ser enterrado nele. Foto: Junio Matos/freelancer

Cão inseparável, até na morte 

Outra é a estatua de um cachorro bem ao lado do jazigo da família Salém José. O filho Vavá Salém morreu em um acidente automobilístico em 1950. Desde o enterro, o cão da família, chamado “Douglas”, não deixava o cemitério por nada. Mesmo levado, não comia nem bebia por estar triste pela morte do dono. Após a morte do animal, os familiares mandaram construir a estátua dele no jazigo. A escultura em bronze é datada de 1955.

 Estátua do cão Douglas, da família Salém, e ao fundo o jazigo dos Mestrinho. Foto: Junio Matos/freelancer

Também estão enterradas lá personalidades políticas e culturais que contribuíram para a historia do Amazonas de alguma maneira, como o Eduardo Ribeiro, Álvaro Maia, o Dr.Thomas, Gilberto Mestrinho e Oscarino Varjão, criador do ventríloco Peteleco. 

 Jazigo da família Mestrinho. Foto: Junio Matos/freelancer

Centenário

O Cemitério São João Batista surgiu como uma necessidade de um novo campo de substituição ao antigo Cemitério de São José, localizado onde é o Atlético Rio Negro Clube, em frente a Praça da Saudade, no Centro. Foi concebido em 1890 e inaugurado em 5 de abril de 1891.

Estima-se que existem 25 mil sepulturas no local.  Ele também é considerado um cemitério da elite manauara da época, devido aos altos custos.

O passeio

O passeio gratuito pelo cemitério centenário surgiu como uma forma de comemorar o aniversário da cidade, celebrado no último dia 24 de outubro, com o passeio anual da página Manaus de Antigamente. Este ano, especialmente, serão dois, um para o interior e esse no cemitério. “A escolha do São João Batista é porque ele é o mais antigo e o mais representativo”, diz Fábio.

 Fábio é um dos responsáveis pelo passeio guiado. Foto: Junio Matos/freelancer

O passeio histórico do próximo dia 4 terá guias explicando os aspectos históricos, os projetos arquitetônicos e dos túmulos das personalidades enterradas lá. Estima-se que um pouco mais de 100 pessoas devam participar desta aula a céu aberto, quantidade parecida com a do passeio do ano passado.
 
De acordo com o Fábio, o fato mais interessante de se organizar passeios históricos assim é que as próprias famílias das personalidades entram em contato com ele. O graduando de História também possui um blog com essa temática chamado História Inteligente (https://historiainte.blogspot.com/), que criou em 2013, quando ainda estava no fundamental.

 Cruzeiro e capela do cemitério. Foto: Junio Matos/freelaner

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