Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
JULGAMENTO

Julgamento de Sotero inicia hoje (29) e delegado está nas mãos de sete jurados

Acusação e defesa arrolaram 20 testemunhas; julgamento está previsto para demorar três dias



1528158_DB2CD13B-6761-4DFA-B2FF-83E4C1CCF665.jpeg Foto: Reprodução
29/10/2019 às 07:46

Defesa e acusação do delegado Gustavo Sotero anteciparam ontem, em coletivas à imprensa, as estratégias que usarão para tentar convencer os sete jurados do Tribunal do Júri pela condenação ou absolvição do réu. Os assistentes da acusação dirão que Sotero desferiu três tiros no advogado Wilson Justo com a intenção de matá-lo. Já os defensores do delegado dirão que os tiros foram em legítima defesa.  O julgamento, previsto para iniciar hoje (29), mobiliza, em ambas as partes, fortes nomes dos meios jurídico e perito-criminal. Defesa de Sotero será feita por advogados do Sul especializados em defender policiais.

A Seccional do Amazonas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AM) está habilitada como assistente da acusação e contratou o renomado perito Ricardo Molina para atuar no processo. A defesa de Sotero é comandada Claudio Delladone, que atuou em casos de repercussão nacional, como a defesa do goleiro Bruno Fernandes. 



Em coletiva realizada pela manhã, na sede da OAB-AM, Zona Sul de Manaus, os assistentes de acusação apresentaram um laudo técnico sobre as imagens que captaram o momento em que o advogado Wilson Justo Filho é morto a tiros.

Numa análise minuciosa das câmeras do circuito interno da casa noturna (cerca de 20), o laudo preparado pelo perito Ricardo Molina aponta que Sotero estava realmente olhando para Fabíola por bastante tempo (e não para o palco, como alegou a defesa). “De fato, o Wilson foi tirar satisfação e após uma troca de palavras deu um soco em Sotero, mas ele revidou esse soco de forma exacerbada. O Gustavo, enquanto autoridade policial, poderia ter dado voz de prisão, mas, ao invés disso, desferiu cinco tiros em um ambiente fechado e só não deu um sexto tiro porque a arma travou”, disse Molina.

O perito disse que o laudo aponta que o primeiro tiro atingiu o cotovelo do advogado, revelando uma tentativa dele se proteger do tiro e não que o delegado agiu em legítima defesa. “Segundo o laudo necroscópico, dos cinco tiros, três atingiram Wilson. Um atingiu o braço, outro o peito (o que foi fatal) e um a orelha. As imagens mostram Sotero iniciando uma caçada a Wilson dentro da casa noturna. Em nenhum momento, há ataques consecutivos por parte da vítima. Pelo contrário, ao perceber que Sotero estava armado, ele se defendeu, correu, tentou se proteger, em nenhum momento atacou. Isso é fantasia da defesa”, apontou ele, que levou aproximadamente três meses analisando as imagens.

Advogada assistente de acusação, Catharina Estrella destacou que o vídeo em 3D apresentado pela defesa não está em ordem cronológica. “Esse vídeo camufla que as pernas do delegado não estavam paralelas, o que indica que não há ataque. A defesa não aponta isso para ludibriar o público. O laudo prova que o Wilson tentou se defender com o braço, onde ele levou o primeiro tiro. Todos veem que ele fugiu da linha de tiro. A defesa manipulou o vídeo”, disse.

Atingidas pelos outros tiros desferidos pelo delegado dentro da casa noturna, as vítimas Maurício Carvalho Rocha e Yuri José Paiva Dácio de Souza também compareceram à coletiva acompanhadas de seus advogados, mas preferiram não falar com a imprensa.

Muito emocionada, a esposa de Wilson Justo, Fabíola Rodrigues, disse que só deseja que a justiça seja feita. “Estou há dois anos sofrendo a  ausência do meu marido. Todos os dias eu tenho que explicar para as minhas duas filhas que o pai delas está no céu. Esse cara (Sotero) destruiu a minha família”, disse.

A dinâmica do julgamento

 Vinte testemunhas devem prestar depoimento no julgamento de Gustavo Sotero. Doze delas, incluindo as três vítimas que sobreviveram, foram arroladas pelos assistentes de acusação. Outras quatro foram chamadas pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM).

A defesa de Gustavo Sotero listou oito testemunhas, sendo que três serão ouvidas por meio de carta precatória. O julgamento, que está previsto para iniciar hoje pela manhã e que  deve durar três dias, será presidido pelo juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri, Celso de Paula. Na acusação, o ex-delegado da Polícia Civil e hoje promotor de Justiça George Pestana, que terá a assistência de mais três advogados. Já a defesa fica por conta de Claudio Dalledone, assistido por advogados integrantes da sua banca de advocacia.

Na abertura do júri,  às 9h, será realizado  o sorteio dos jurados (sete de 25 convocados) e na sequência: oitiva das vítimas, das testemunhas de acusação e das que forem em comum com as de defesa. 

Amanhã, a partir das 9h, serão realizadas as oitivas das testemunhas de defesa, dos assistentes técnicos da acusação e da defesa.  Na quinta-feira,  às 9h, serão realizados o interrogatório do acusado, os debates, a quesitação e prolatação da sentença.

Veredicto do senso-comum

Ontem à tarde, o advogado Claudio Dalledone recebeu a imprensa e deu uma prévia como vai trabalhar para tentar absolver o delegado Gustavo Sotero das acusações de homicídio e tentativas de homicídio. Dono de uma banca especializada em defender policiais, Dalledone trouxe mais quatro advogados e a renomada perita criminal Jussara Joeckel, da Seção de Crimes Contra a Pessoa (morte violenta) do Paraná.

Dalledone disse que Gustavo Sotero que um grupo de advogados está pressionando para que nenhuma garantia seja dada ao delegado. “É uma verdadeira força-tarefa de poderosos advogados que assumem uma saga acusatória contra um delegado de polícia honrado, cidadão pai de família, contra o filho de uma costureira do Ceará”, disse.

De acordo com o advogado as imagens feitas pelas câmeras de segurança da casa noturna mostram claramente que Sotero agiu em legítima defesa. “O meu cliente foi espancado, esmurrado, agredido e no final se entregou à polícia, e desde o início, ainda  na delegacia, disse aos policiais que a sua reação foi em legítima defesa, pois  não sabia porque estava sendo agredido e nem porque. Naquele dia, Sotero não sabia que Wilson era pai de três filhos, que ele era advogado e que tinha essas poderosas ligações com a política local”, disse. Conforme Dalledone, O que Sotero viu naquele momento foi um individuo que imaginando que ele estivesse a cortejar a sua esposa optou por cometer um crime dando um soco no olho do delegado. “Essas questões serão debatidas e o senso comum chegará a um veredicto. Ele se identifica como policial, saca a sua arma e recebe mais um ataque. Os tiros são disparados”, disse Dalledone.

O advogado disse ainda que, no julgamento, a perita  Jussara Joeckel vai e contestar os laudos e impressões e opiniões mostradas por Ricardo Molina.  

Vestindo camisetas brancas com os dizeres “Somos Sotero. Legítima defesa sim”, colegas da Polícia Civil e familiares do réu  acompanharam a coletiva de imprensa dos advogados. 
A mãe do delegado, visivelmente abalada, acompanhou tudo chorando e sempre amparada por familiares. “O meu filho é inocente”, dizia ela, entre soluços. A mulher  disse que veio do Ceará, onde mora, para acompanhar o julgamento de Sotero na certeza de que será feita justiça, que ele agiu em legítima defesa e que seria absolvido.

OAB responde

Em nota, o presidente da Seccional do Amazonas Ordem dos Advogados do Brasil, Marco Aurélio Choy, disse ontem que a instituição representa todos os advogados e sempre defendeu os seus integrantes quando eles sofrem alguma agressão. 
“A OAB sempre respeitou as prerrogativas e respeita as garantias de todos os advogados de defesa”, afirmou Marco Choy  em nota.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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