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Manaus
CASO KAYUBE

MP denuncia 7 envolvidos em linchamento de estudante por homicídio qualificado

Kayube de Carvalho Oliveira, 16, foi confundido com um assaltante e morto na comunidade Val Paraíso, Zona Leste de Manaus, em agosto de 2018 23/02/2019 às 02:56
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Foto: Jander Robson/Arquivo AC
Joana Queiroz Manaus (AM)

O Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) ofereceu denúncia contra sete pessoas pelo crime de homicídio triplamente qualificado contra o estudante Kayube de Carvalho Oliveira, 16, ocorrido no dia 5 de agosto do ano passado, na  rua Paranacaxi, comunidade Val Paraíso, no bairro Jorge Teixeira, Zona Leste de Manaus. 

O jovem estudante, aluno do Colégio da Polícia Militar do Amazonas,  foi confundido com um assaltante e espancado até a morte. Na denúncia do MP-AM à Justiça, fica destacado o “selvagerismo”  das pessoas que o mataram o estudante.

Vinícius Nascimento Mendes, o “Bee”, Anisson Freitas de Lima, o “Chocolate”, Vicente Moreira Lima, o “Zico”, Francisco Bruno Paulo de Oliveira, o “Da Galinha”, Anderson Freitas de Lima, o “Mudoca”, Dayvison Rego da Silva, o “Pirata”, e Marcos Henrique Monteiro, o “Bené”, tiveram participação direta na morte do estudante, segundo a denúncia do MP-AM.

De acordo com o promotor da 14ª Promotoria de Justiça junto à 1ª Vara do Tribunal do Júri, Armando Gurgel Maia, as investigações continuam para identificar outros que participaram do crime contra Kayube. “Outros nomes ainda podem aparecer e, se houver provas, estes também serão denunciados pelo MP-AM”, disse Gurgel, ontem, ao jornal A CRÍTICA.

Conforme a denúncia do MP-AM, Kayube foi morto em via pública a pauladas, chutes, socos, pedradas e facadas, pelos denunciados e por outros indivíduos ainda não qualificados no processo. A ação violenta causou à vítima traumatismo craniano encefálico, múltiplas lesões na cabeça e agressão física.  

O promotor destacou que os réus agiram de forma arbitrária, como juízes da vida, sem qualquer respaldo legal, sob o pretexto de, sumariamente, sem qualquer apuração, estar reprimindo práticas delituosas.

Ainda conforme a denúncia, a motivação do crime foi torpe. Os acusados foram movidos pela vontade de matar a vítima, motivação considerada repugnante pela promotoria. Os criminosos agiram de forma cruel e ainda impossibilitaram a defesa da vítima, pois a mesma foi abordada de surpresa, por várias pessoas armadas, enquanto estava desarmada.

No momento do crime, um dos envolvidos ligou para o chefe do tráfico de drogas na área informando que um mototaxista tinha detido um suposto ladrão na comunidade. A vítima foi arrastada desde a parte de cima da rua até um igarapé que fica no final da via, onde foi agredida a pauladas, pedradas, facadas, chutes e socos.

O promotor disse que inicialmente todos os denunciados  foram presos, mas muitos já estão em liberdade e que os demais deverão ser logo soltos.  “O MP vai velar junto à 1ª Vara para que as sessões aconteçam o mais breve possível para que o julgamento não demore a acontecer”, disse Armando Gurgel.

18 anos

É quanto podem pegar de prisão cada um dos acusados, caso sejam condenados. Em 2017, um réu foi condenado a esse tempo de prisão, na 2º Vara do Tribunal de Júri,  pelo mesmo crime e as mesmas três qualificadoras.

Agressor: "ladrão tem que morrer"

A investigação do caso foi comandada pela Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS).  Na denúncia, encaminhada à Justiça estadual no último dia 11, o promotor Armando Gurgel individualizou a conduta dos denunciados. 

Na execução do crime, Bee usou uma tábua e deu vários golpes na cabeça da vítima e ainda o atingiu na barriga com uma pedrada. Mudoca usou um pedaço de pau para bater várias vezes na cabeça do estudante. Chocolate fez uso de uma estaca que tirou de uma horta e atingiu a vítima por várias vezes na cabeça e, em seguida, chutou e aplicou socos.

Pirata usou um bloco de concreto e tijolo e acertou a cabeça da vítima e ainda o agrediu com chutes. Zico agrediu a vítima com chutes, pauladas e pedradas na cabeça, da mesma forma agiu o denunciado Da Galinha, e Bené agrediu fisicamente a vítima. Enquanto agrediam, Bee afirmava que “ladrão tem que morrer”.

Justiceiros mataram e ainda roubaram vítima

A família contou que, no dia do crime, o adolescente saiu da casa da mãe dele para ir à igreja, quando solicitou uma corrida por um aplicativo de transporte. Enquanto descia a rua, ele foi confundido com um suspeito de roubo nas redondezas. Um grupo de pessoas agrediu o estudante até a morte e, em seguida, jogou o corpo dele em um córrego junto com os pedaços de madeira que foram utilizados no crime. Além de linchar o adolescente, “justiceiros” levaram pertences de Kayube, como celular, relógio e carteira.

No local do crime, para a reportagem de A CRÍTICA, à época, nenhum morador quis comentar o caso por medo de represálias. Os parentes do adolescente contaram que a mãe da vítima tem um sítio no fim da rua Paracanaxi, e que, por ser uma área perigosa, Kayube não costumava ficar na rua e que, com medo de assaltantes, sempre saía de casa de carro. 

O adolescente frequentava a igreja e era aluno do Colégio Militar da Polícia Militar 4. A família descartou qualquer envolvimento do jovem com o mundo do crime. “Se puxar a ficha criminal dele, pode constatar que ele nunca fez nada. O destino dele era de casa para escola, ou para igreja”, relatou o motorista Alfreidson Mendonça, primo da vítima, durante o velório.

“Ele era de família, não era um ‘à toa’ que foi encontrado no mundo, ele era apenas uma criança. Meu sobrinho foi morto injustamente, não cometeu roubo nenhum. O que nos revolta é ele ter sido brutalmente pisoteado, espancado por populares”, disse Rômulo Gomes, tio do estudante.

Kayube era filho de pais separados e tinha como padrasto um investigador da Polícia Civil, que viu o corpo em um grupo de policiais e reconheceu o enteado. 
“Meu primo ficou com o rosto desfigurado, ele  ficou deformado. Ele não tinha condição de defesa porque ele tinha uma estatura magra. Além de roubarem, ainda fizeram isso com ele”, disse Alfreidson Mendonça. 

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