Sábado, 07 de Dezembro de 2019
FIM DO DINHEIRO

Usuários de ônibus questionam reais benefícios de pagamento eletrônico

População diz que medida é benéfica para empresas, mas não vai impactar em maior segurança a usuários. Anunciado pela prefeitura, novo sistema aceitará apenas pagamento com smart card



20/09/2019 às 17:47

O  pagamento de passagens de ônibus em dinheiro em Manaus está com os dias contados. Um decreto publicado no Diário Oficial do Município de quinta-feira (19) determinou a implementação, no prazo de dois meses, de um novo sistema no qual a tarifa será aceita apenas por meio eletrônico, com uso de “smart card" (cartão inteligente). A mudança, entretanto, não foi bem recebida por rodoviários e usuários do transporte público.

As mudanças no meio de pagamento da tarifa de ônibus já estão em pauta  em  outras cidades do País, como Curitiba, Goiânia e Rio de Janeiro. Em São Paulo, por exemplo, funciona um projeto piloto em que as passagens podem ser pagas no cartão de crédito ou débito.



No entanto, em Manaus, a medida tem levantado dúvidas, principalmente a respeito do real benefício à segurança dos usuários. Para Aline Cristina Bezerra, que trabalha como Revisora da Qualidade e utiliza o transporte convencional todos os dias, a alteração não traz benefícios. 

“Vai ser  mais burocrático, pois a pessoa terá de tirar a carteirinha, fazer cadastro. Não vai reduzir o número de assaltos. Fui assaltada no ônibus e levaram minha carteirinha, meu celular, tudo o que estava dentro da bolsa”, contou.

>>> Leia mais: Sindicato dos Rodoviários adotará medidas contra pagamento no 'cartão'

Outra preocupação é com relação à extinção da profissão de cobrador, pois não haverá mais circulação de dinheiro, conforme destacou o bombeiro e usuário frequente transporte coletivo, Elizeu Araújo.

“Se não aceitar mais dinheiro no pagamento das passagens, corre o risco de não ser mais necessária a presença do cobrador nos ônibus. Vai ser mais prático, mas pelo lado do trabalhador  é um aspecto negativo, pois pode gerar desemprego”, opinou.

O motorista de ônibus Luiz Pereira Lopes também avalia que este modelo pode resultar na extinção da profissão de cobrador.

“Quem sai perdendo é a categoria de cobrador, que pode ser extinta. Mas  não acredito que os motoristas fiquem sobrecarregados, pois não haverá circulação de dinheiro”,disse.

Para passageiros, a resolução de outros problemas deveria ser priorizada na otimização do sistema de transporte coletivo, como a melhoria no sistema de recargas do vale-transporte e passe-estudantil. Apesar de o Sinetram possuir 155 pontos de venda de créditos em Manaus, nem sempre os passageiros conseguem recarregar. O estudante de Serviço Social, Klinger Morais contou que enfrenta problemas na hora da compra de  créditos. 

“Os pontos de recarga vivem sem sistema, é preciso na maioria das vezes vir até o Sinetram”, disse.

Em  relação ao novo modelo, o estudante acredita que não será benéfico para a população. “A medida beneficia os empresários porque eles não vão mais sofrer com assaltos, pois não vai ter dinheiro no ônibus, quem vai sofrer somos nós, os usuários”, destacou.

'Mudança é gradativa'

A medida faz parte da intervenção municipal financeira no transporte, assinada no último dia 22 de julho pelo prefeito Artur Neto, e valerá, a princípio, apenas para o transporte convencional e, depois, aplicada aos alternativos.

Segundo o secretário municipal extraordinário de Articulação Política, Luiz Alberto Carijó, a implementação do novo modelo visa garantir a segurança física dos  passageiros e dos trabalhadores, mas deve acontecer de forma gradativa.

“Devido aos constantes assaltos, em função estritamente do dinheiro que circula dentro do ônibus, tomou-se essa decisão. Nesse sentido, veio o decreto para implantação do sistema de smart-card em dois meses. O que não quer dizer que após esse prazo só existirá o sistema de smartcard. É um processo lento, gradual e tecnológico”, disse.

Carijó esclareceu ainda que o sistema funcionará primeiro em fase de teste, para detectar possíveis falhas e também para que a população possa se adaptar. Enquanto não estiver operando em sua totalidade, o pagamento em dinheiro seguirá sendo aceito. Há também, segundo ele, a proposta de que o número de pontos de recarga seja ampliado.

A prefeitura garantiu que “nenhum trabalhador perderá seu emprego em função dos smartcards, e que  vai buscar, nos próximos dias, parcerias para que o acesso seja ao máximo facilitado para a população”.

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Repórter
Cientista Social, Escritora e Jornalista. Repórter de A Crítica, apaixonada pela arte de contar histórias.

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