A poucos dias do festival, obras monumentais começam a desvendar os conceitos que conduzirão os bois na disputa pelo título de campeão
Entre espíritos da floresta e símbolos de renascimento, alegorias de Caprichoso e Garantido revelam a dimensão artística e cenográfica que transforma o Bumbódromo em um dos maiores espetáculos a céu aberto do país (Fotos: Jeiza Russo/A CRÍTICA)
Parintins/AM – Faltando apenas quatro dias para o início do 59º Festival Folclórico de Parintins, os temas escolhidos por Caprichoso e Garantido para 2026 começam a deixar o campo das ideias e ganhar forma na concentração do Bumbódromo. Entre alegorias monumentais, lendas amazônicas, rituais indígenas, seres encantados e símbolos da ancestralidade parintinense, os projetos artísticos dos dois bois passam a ser revelados ao público à medida que os módulos chegam à arena e entram na fase final de montagem.
(Foto: Divulgação SECOM)
Todo esse processo poderá ser acompanhado pelos torcedores presencialmente na Ilha Tupinambarana e também pela transmissão especial da TV A Crítica, emissora oficial do festival, que levará o espetáculo em tecnologia 4K para todo o Brasil.
RCC investiu pesado e transmissão do Festival seguirá sendo feito com tecnologia 4K pelo YouTube (Foto: Jeiza Russo)
No Caprichoso, o tema “Brinquedo que Canta Seu Chão” transforma o boi-bumbá em uma expressão viva de memória, pertencimento e identidade amazônica.
Tema do Caprichoso para 2026, “Brinquedo que Canta Seu Chão” propõe uma reflexão sobre o boi-bumbá como expressão de pertencimento, ancestralidade e cultura popular
Já o Garantido aposta em “Parintins: Portal do Encantamento”, proposta que mergulha no universo dos seres encantados, da espiritualidade e da ancestralidade que moldam a história da Ilha Tupinambarana.
Entre seres encantados, ancestralidade e memória, o Garantido transforma Parintins em um portal entre o mundo material e o imaterial no Festival de 2026
Enquanto os módulos alegóricos ocupam a concentração do Bumbódromo, os conceitos apresentados pelas comissões de arte começam a se materializar diante dos olhos dos torcedores.
Os responsáveis pela execução e concretização dos temas adiantam detalhes sobre a concepção das três noites de apresentação, que serão divididas em subtemas e narrativas específicas. Embora os bois mantenham em sigilo parte das surpresas reservadas para a arena, as alegorias já permitem identificar elementos centrais das propostas artísticas que disputarão o título de campeão do festival.
No Boi Caprichoso, o tema “Brinquedo que Canta Seu Chão” parte de três conceitos fundamentais: brinquedo, chão e canto. Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, o presidente do Conselho de Artes, Ericky Nakanome, explicou que a proposta nasce da própria compreensão do boi-bumbá como um brinquedo popular que ultrapassa sua dimensão material.
Presidente do Conselho de Artes do Caprichoso, Ericky Nakanome explica os conceitos de brinquedo, chão e canto que fundamentam o tema do boi azul e branco para o Festival de Parintins 2026. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
Segundo ele, o boi não é apenas um objeto artístico conduzido na arena, mas uma entidade viva que carrega memórias familiares, afetos coletivos e a identidade cultural construída ao longo das gerações. O conceito também dialoga com o território de onde surge a manifestação, valorizando a ancestralidade dos povos que habitaram a Ilha Tupinambarana muito antes da fundação da cidade.
Essa interpretação já pode ser percebida nas alegorias que chegam à concentração azulada. Entre elas estão representações de rituais indígenas, como a “Tukaia dos Espíritos”, ligada às práticas xamânicas de contato com entidades espirituais, e o “Ferrão de Fogo”, inspirado no ritual de iniciação dos povos Sateré-Mawé. Também chama atenção a alegoria que materializa o próprio tema do festival, ainda em fase final de montagem e aguardando traslado para a concentração do Bumbódromo.
Alegoria 'Ferrão de Fogo' do Caprichoso ilustra rito de iniciação do povo indígena Sateré-Mawé. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Para Ericky, o verbo cantar assume um significado que vai além das toadas. Trata-se da capacidade do boi de ecoar histórias, ancestralidades e experiências coletivas, transformando arte em manifestação de pertencimento. O espetáculo azul e branco, portanto, pretende cantar o território que moldou a identidade do próprio Caprichoso e da população amazônica.
No lado vermelho da disputa, o Garantido apresenta “Parintins: Portal do Encantamento”, tema que propõe uma travessia pelo universo dos seres encantados, da espiritualidade amazônica e das múltiplas identidades que formam o povo de Parintins. A concepção foi detalhada pelo diretor de arena e membro da Comissão de Artes, Telo Pinto.
Diretor de arena e membro da Comissão de Artes do Garantido, Telo Pinto detalhou à reportagem de A CRÍTICA os conceitos que fundamentam o tema “Parintins: Portal do Encantamento” para o Festival de Parintins 2026. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA.
Segundo ele, o espetáculo parte da ideia de que Parintins funciona como uma espécie de passagem entre o mundo material e o imaterial. Nesse território coexistem histórias, crenças, memórias e narrativas transmitidas por povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos, quilombolas e diversos grupos que contribuíram para a formação cultural da ilha.
A proposta artística já começa a ganhar forma nas alegorias instaladas na concentração encarnada. Entre elas estão a alegoria temática “Parintins: Portal do Encantamento”, além de estruturas monumentais como “Kamara”, “Travessia das Cinzas” e “Pindova’úmi’ga”, que ajudam a construir visualmente a jornada pelos mundos encantados imaginada pela Comissão de Arte do Garantido.
A alegoria temática “Parintins: Portal do Encantamento” sintetiza o conceito apresentado pelo Garantido para o Festival de Parintins 2026, reunindo referências à ancestralidade, aos povos da Amazônia e ao universo dos encantados. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Para Telo Pinto, o espetáculo também pretende reforçar uma mensagem de diversidade e pertencimento. Ao reunir diferentes povos, crenças e formas de compreender o mundo, o Garantido busca transmitir a ideia de que todos compartilham uma mesma origem amazônica, convivendo simbolicamente com os seres encantados que habitam rios, florestas e narrativas ancestrais.
Enquanto guindastes, artistas, soldadores, escultores e equipes de acabamento trabalham nos ajustes finais das alegorias, cresce a expectativa para o momento em que os módulos ocuparão definitivamente a arena do Bumbódromo. É nesse espaço que os conceitos apresentados ao longo dos últimos meses serão colocados à prova diante dos jurados e do público.
Entre o chão cantado pelo Caprichoso e o portal dos encantados do Garantido, a temporada bovina entra na reta final. As apresentações acontecem nas noites dos dias 26, 27 e 28 de junho, com o Caprichoso abrindo e o Garantido encerrando.