RITO DE INICIAÇÃO

Sateré-Mawé levam ritual da Tucandeira à arena do Caprichoso com protagonismo indígena

Compositores da toada "Ferrão de Fogo" destacam que o Waumat será apresentado a partir da visão do próprio povo Sateré-Mawé.

Robson Adriano
22/06/2026 às 15:18.
Atualizado em 22/06/2026 às 15:21

Liderança indígena e compositor, Josias Sateré-Mawé destaca a importância de apresentar o Ritual da Tucandeira a partir da visão do próprio povo Sateré-Mawé na arena do Bumbódromo (Fotos: Jeiza Russo/A CRÍTICA)

Os primeiros registros do Ritual da Tucandeira (Waumat), rito de iniciação do povo Sateré-Mawé, remontam ao século XVII. Produzidos por cronistas da época, esses relatos descrevem o uso de formigas em cerimônias indígenas. Ao longo dos séculos, antropólogos não indígenas documentaram a celebração que marca a passagem do menino para a vida adulta. Neste ano, essa história é contada pelo próprio povo Sateré-Mawé, no Bumbódromo de Parintins.

“Ferrão de Fogo”, toada do boi Caprichoso que compõe o espetáculo “Brinquedo que canta o seu chão”, tem como compositores duas lideranças indígenas: Josias Sateré-Mawé, 37 anos, e Aldamir Sateré-Mawé, 51 anos, em parceria com Elton Junior. Josias, em entrevista ao acritica.com, explicou que o Conselho de Artes o convidou para a composição.

“Eles entendem que o povo Sateré-Mawé precisa ser protagonista. E acharam por bem colocar na arena uma toada autêntica indígena Sateré-Mawé”, explicou.

Josias Sateré-Mawé, compositor da toada "Ferrão de Fogo", fala sobre o protagonismo indígena na construção do espetáculo do boi Caprichoso para o Festival de Parintins 2026. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

Na cosmovisão do povo Sateré-Mawé, Waumat é uma cerimônia de passagem do menino para a vida adulta, assim como para novas responsabilidades na aldeia. O elemento mais conhecido do ritual é o uso de luvas trançadas com formigas tucandeiras (Paraponera clavata), consideradas entre os insetos de picada mais dolorosa do mundo. O menino coloca as mãos nas luvas e suporta as picadas como demonstração de resistência física, coragem e preparação para a vida adulta.

“Quando a criança se torna pré-adolescente, prestes a se tornar adulta, a comunidade precisa de uma referência, precisa de uma pessoa que, no futuro, seja um líder. Então, para isso, a própria cultura Sateré-Mawé impõe algumas situações, que é passar pelo processo de ferroadas que significam o amadurecimento dessa criança para entender que, na vida, nada é fácil. E, quando essa criança se tornar uma liderança local, já entende que nada será fácil”, explicou Josias.

As luvas trançadas com formigas tucandeiras são o principal símbolo do Waumat, ritual de iniciação do povo Sateré-Mawé que será apresentado na arena do Bumbódromo pela ótica indígena. Foto: Reprodução/INTERNET

 Ele frisa a importância da representatividade Sateré-Mawé na arena. “Esse espaço foi aberto para nós, para que pudéssemos contar a nossa história. É colocar na arena e dizer: ‘essa é a nossa história e verdade’, ‘é o que temos como nossa cultura e conhecimento’. Mostrar para o povo parintinense e para o mundo que o povo Sateré-Mawé está vivo e, apesar de 300 anos de contato, continuamos revivendo e vivendo essas experiências que continuam próximas”, declarou.

História

Josias contou que a presença da tucandeira ocorre há séculos. “É muito ancestral. Foi uma disputa entre irmãos. Um deles teve a vontade de se ferroar para dizer que é uma pessoa adulta. Na história mitológica Sateré, ele incentiva um outro irmão a se ferrar com picada de cobra sem saber que existia uma ferroada tão potente como a da tucandeira. Ele viaja até o mundo dos espíritos e traz o conhecimento. E conta aos demais que sobreviveu à ferroada e pode liderar o povo Sateré-Mawé”, explicou.

A Tucandeira é a renovação da história Sateré-Mawé. “No momento em que estão cantando, falando, estamos revivendo toda a história Sateré-Mawé. O ritual da Tucandeira dura 20 luas diferentes. E esse jovem pode passar todos os dias ou daqui a uma semana. Essa história é contada por cada luva que ele coloca. São luvas diferentes. E existe uma pessoa específica que já nasce com o talento de cantar e contar essa história. Não se aprende. É passada de pai para filho. Um canto feito no sateré antigo”, detalhou Josias.

O povo

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que existem 13.310 indígenas Sateré-Mawé no Brasil, e a maior parte dessa população está concentrada na região amazônica, especialmente na Terra Indígena Andirá-Marau, que se estende pelos municípios próximos a Parintins (distante 369 quilômetros em linha reta de Manaus). De tempos em tempos, o rito retorna escrito por compositores não indígenas. Conforme Josias, “Ferrão de Fogo” mostra o rito pela ótica dos Sateré-Mawé.

Batizada de "Ferrão de Fogo", a alegoria do boi Caprichoso, assinada pelo artista Algles Ferreira, traduz visualmente o Ritual da Tucandeira (Waumat). Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 “Sempre levavam o ritual de forma estereotipada. Não levavam as características e ideias. Neste ano, pensamos em uma maneira de: ‘por que não levar algo autêntico para a arena? Seja a voz, a cultura e a experiência?’. E nesse processo tem todo um preparo que a cultura nos ensina. Vamos construindo isso de geração para geração. É isso que queremos passar na arena: esse conhecimento e saber autêntico Sateré-Mawé construído no local, executado há mais de 300 anos e que continua vivo”, explicou Josias.

  

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