REPRESENTATIVIDADE INDÍGENA

Kamarayanos celebram origem ancestral pela Onça-Mãe na arena do Garantido

Considerada a origem do povo-onça, João Wehteke Kamarayano, 28 anos, explica que Kamara "é a vida e o último suspiro dos Kamarayanos"

Robson Adriano
online@acritica.com
22/06/2026 às 14:46.
Atualizado em 22/06/2026 às 16:01

Conhecido como povo-onça, os Kamaryanos verão o Garantido representar, na arena do Bumbódromo, a sua Onça-Mãe (Fotos: Arquivo Pessoal e Reprodução/Florian Kriechbaumer/National Geographic)

Kamara ocupa um lugar central na identidade do povo Kamarayano, conhecido como povo-onça. Pela primeira vez, a lenda da Onça-Mãe — entidade ancestral considerada a origem da vida e da existência desse povo indígena — será representada na arena do Festival Folclórico de Parintins pelo boi Garantido. Para João Wehteke Kamarayano, de 28 anos, a personagem simboliza "a vida e o último suspiro dos Kamarayanos".

“Kamara é uma entidade. Ela representa tudo: a floresta, as águas e os rios. Ela é uma entidade para os povos Kamaryanos. Tudo vem dela: os pensamentos, a reprodução, o nascimento da vida. Ela é a onça-mãe. A mãe que dá frutos e gera vida”, explicou João. A história é passada por meio da oralidade. O avô de João, Antonio Mausá, de 87 anos, que vive na aldeia Matrixã, no Alto Nhamundá — na divisa do estado do Amazonas com o Pará — transmitiu os saberes ao neto.

João Wehteke Kamarayano, de 28 anos

“Meu avô falava que a onça é o sopro da vida. Dela vem a vida e a conexão com a floresta. O rugido da onça, as pintas, tudo tem um significado para os povos Kamarayanos. A onça é bastante representativa para os povos Kamaryanos. Temos uma ligação muito forte com a Kamara. Até hoje meu avô conta essa história e eu conto para os meus filhos. Como teve a invasão missionária, as histórias estavam acabando. Mas meu avô dizia que as histórias não são para acabar”, detalhou.

 Os Kamarayanos são um subgrupo do povo Hixkaryana que agrega mais seis etnias: Yukwarayana, Karahawyana, Xowyana, Katuena, Waiwai e Xereu. Os sete povos têm o Karib como língua de tronco comum. Historicamente, os Kamarayanos se uniram com os demais povos para sobreviver aos massacres de guerras de cunho territorialista. Aproximadamente, existem 86 kamarayanos. Segundo João, os Kamarayanos foram descobertos em 1956 pelo missionário Desmond C. Derbyshire.

Primeiros registro do povo Kamaryano feito pelo missionário americano Desmond C. Derbyshire em 1956

Primeiros registro do povo Kamaryano feito pelo missionário americano Desmond C. Derbyshire em 1956

 “Meu avô conta a história de que os Kamarayanos foram dizimados pelas guerras do passado. Existiam 26 famílias naquela época. Meu avô fala que, como havia etnias próximas, os Kamarayanos se juntaram a esses povos para não serem dizimados. Meu avô fala que ele (Desmond) ficou cinco anos na comunidade indígena para aprender a linguagem e a cultura. Na aldeia, os Hixkaryana vivem da caça e temos vários rituais”, disse João.

Kamara, representada visualmente pela alegoria de lenda indígena do Boi Bumbá Garantido. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 João relata que ficou emocionado ao saber que a lenda da Kamara será representada na arena do Bumbódromo, em Parintins (distante 369 quilômetros em linha reta de Manaus).

“É uma história que não se falava há décadas. Ninguém se interessou por essas histórias. É importante trazer essa batalha dos povos para tentar sobreviver. Isso está sendo muito importante. Fiquei feliz que o Brasil inteiro vai conhecer a Kamara, o sopro da vida dos Kamarayanos. É uma parte de nós dentro da arena”, finalizou o indígena.

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