Considerada a origem do povo-onça, João Wehteke Kamarayano, 28 anos, explica que Kamara "é a vida e o último suspiro dos Kamarayanos"
Conhecido como povo-onça, os Kamaryanos verão o Garantido representar, na arena do Bumbódromo, a sua Onça-Mãe (Fotos: Arquivo Pessoal e Reprodução/Florian Kriechbaumer/National Geographic)
Kamara ocupa um lugar central na identidade do povo Kamarayano, conhecido como povo-onça. Pela primeira vez, a lenda da Onça-Mãe — entidade ancestral considerada a origem da vida e da existência desse povo indígena — será representada na arena do Festival Folclórico de Parintins pelo boi Garantido. Para João Wehteke Kamarayano, de 28 anos, a personagem simboliza "a vida e o último suspiro dos Kamarayanos".
“Kamara é uma entidade. Ela representa tudo: a floresta, as águas e os rios. Ela é uma entidade para os povos Kamaryanos. Tudo vem dela: os pensamentos, a reprodução, o nascimento da vida. Ela é a onça-mãe. A mãe que dá frutos e gera vida”, explicou João. A história é passada por meio da oralidade. O avô de João, Antonio Mausá, de 87 anos, que vive na aldeia Matrixã, no Alto Nhamundá — na divisa do estado do Amazonas com o Pará — transmitiu os saberes ao neto.
João Wehteke Kamarayano, de 28 anos
LEIA MAIS >>> Garantido aposta em ancestralidade e espiritualidade com o tema “Parintins: Portal do Encantamento”
Os Kamarayanos são um subgrupo do povo Hixkaryana que agrega mais seis etnias: Yukwarayana, Karahawyana, Xowyana, Katuena, Waiwai e Xereu. Os sete povos têm o Karib como língua de tronco comum. Historicamente, os Kamarayanos se uniram com os demais povos para sobreviver aos massacres de guerras de cunho territorialista. Aproximadamente, existem 86 kamarayanos. Segundo João, os Kamarayanos foram descobertos em 1956 pelo missionário Desmond C. Derbyshire.
Primeiros registro do povo Kamaryano feito pelo missionário americano Desmond C. Derbyshire em 1956
Primeiros registro do povo Kamaryano feito pelo missionário americano Desmond C. Derbyshire em 1956
“Meu avô conta a história de que os Kamarayanos foram dizimados pelas guerras do passado. Existiam 26 famílias naquela época. Meu avô fala que, como havia etnias próximas, os Kamarayanos se juntaram a esses povos para não serem dizimados. Meu avô fala que ele (Desmond) ficou cinco anos na comunidade indígena para aprender a linguagem e a cultura. Na aldeia, os Hixkaryana vivem da caça e temos vários rituais”, disse João.
Kamara, representada visualmente pela alegoria de lenda indígena do Boi Bumbá Garantido. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
João relata que ficou emocionado ao saber que a lenda da Kamara será representada na arena do Bumbódromo, em Parintins (distante 369 quilômetros em linha reta de Manaus).